Gastos Variáveis, Fixos e Semivariáveis. Conhecimentos indispensáveis para quem trabalha com análise econômica e financeira

Conceitos Fundamentais

Este artigo será de utilidade para todos profissionais envolvidos com qualquer tipo de análise econômica ou financeira.

Quando uma empresa forma seu preço de venda, analisa a rentabilidade de uma unidade de negócio ou estuda um projeto de investimento, é comum que os custos considerados nestas análises sejam separados entre variáveis e fixos.

Veremos neste artigo que existem custos 100% variáveis e 100% fixos. Todavia, alguns custos não são nem 100% varáveis e nem 100% fixos.

Como proceder com estes custos semivariáveis? Como destacar o seu componente variável do seu componente fixo?

Vamos iniciar este assunto com uma revisão de conceitos fundamentais:

CUSTO

Todo sacrifício financeiro ligado à atividade de produção de um bem ou serviço. Exemplos: custo de matérias-primas, custo de mão-de-obra, etc.

DESPESA

Todo sacrifício financeiro ligado às atividades de suporte da produção, não sendo diretamente ligada a ela. Exemplos: despesa de propaganda, despesa administrativa, etc.

GASTO

Todo e qualquer tipo de sacrifício financeiro, independentemente de sua natureza. Exemplos: gasto de matérias primas, gasto de mão-de-obra, gasto de propaganda, gasto de aluguel, etc. Podemos chamar de gasto tanto um custo quanto uma despesa. Como o termo gasto é polivalente, vamos assumi-lo no decorrer de nossa exposição.

GASTO VARIÁVEL

Todo custo ou despesa que varia na mesma proporção das vendas. Exemplo: ICMS, matérias primas, embalagens, mercadorias para revenda, etc.

Um gasto variável é associado a um produto. Usualmente nos referimos a um gasto variável como um percentual ou um valor por produto vendido.

Exemplo: quando a empresa vende um produto a $100, ela paga uma comissão sobre vendas de 2%, ou paga uma comissão sobre vendas de $2 por produto vendido. Este mesmo produto consome $35 de matéria prima, ou 35% do preço de venda de $100 refere-se a matéria prima consumida.

Gerencialmente, é melhor associar um gasto variável às vendas e não à produção, como é comum ser citado em várias publicações.

A rigor, poderíamos imaginar que no mês de março de 20X0 uma empresa produziu 100 computadores e não vendeu nenhum. A matéria prima utilizada na produção não foi consumida. Ela apenas transitou do estoque de matérias primas para o estoque de produtos acabados. O consumo da matéria prima efetivamente só vai acontecer quando o computador for vendido.

GASTO FIXO

Todo custo ou despesa que permanece inalterado em função do comportamento das vendas/produção, dentro de uma unidade de tempo (um mês, por exemplo). Portanto, o gasto fixo não tem seu comportamento ditado diretamente pelas vendas.

Se observarmos o comportamento dos gastos fixos mês a mês ao longo de 1 ano, ele poderá crescer ou decrescer em “degraus” e em ritmo diferenciado em relação ao comportamento das vendas, o que não lhe tira a característica de gasto fixo.

Portanto, ao nos referirmos a um gasto fixo, precisamos evidenciar o período de tempo a que ele se refere. Um gasto fixo para ser mostrado de maneira correta, tem que ser mostrado em valores absolutos.

Exemplo: O aluguel é de $1.000 por mês. A depreciação de equipamentos é de $2.000 por mês (observe que o gasto fixo está sendo mostrado em valor e sempre sendo associado a um período de tempo).

GASTO SEMIVARIÁVEL

Todo custo ou despesa que numa unidade de tempo (mês por exemplo) se altera em função das vendas, mas não na mesma proporção destas. O gasto semivariável tem uma parcela fixa e outra variável.

Exemplos: energia, mão-de-obra, etc. Estes podem ser gastos semivariáveis ou fixos, mas jamais exemplos de gastos variáveis.

MARGEM DE CONTRIBUIÇÃO

A margem de contribuição de um produto é seu preço de venda menos os gastos variáveis. Exemplo: se o preço de uma refeição é de $4,50 e o custo variável com gêneros alimentícios é de $3,00, a margem de contribuição desta refeição é de $1,50, valor que esta refeição “contribui” para absorção dos gastos fixos.

As empresas gostam de saber a margem de contribuição de seus produtos. Portanto, a empresa precisa ter perfeito conhecimentos dos gastos que são verdadeiramente variáveis. É muito comum uma empresa tomar um custo fixo, ratear por produto e assumi-lo como verdadeiramente variável para fins de margem de contribuição. É um erro porque distorce a verdadeira margem de contribuição.

Exemplo

Separe cada um dos elementos de gasto apresentado a seguir em parte fixa (valor absoluto) e parte variável (valor por unidade vendida).

  • Empresa: ABC
  • Estatística: Custo das vendas
  • Período: abril
  • Produto: X.

Atenção! Uma análise de mercado aponta que as estimativas de venda para o mês de maio podem oscilar entre 5.000 e 10.000 unidades.

Comentários:

  • A matéria prima é um gasto variável. Se vendermos 5.000 unidades gastaremos $5.000. Se nossas vendas em volume dobrarem, nossos gastos também dobrarão.
  • Se dividirmos $5.000 por 5.000 unidades ou $10.000 por $10.000, chegaremos a um gasto de matéria prima por unidade vendida de $1. Observe que o gasto variável é expresso em valor por produto ($1 por unidade vendida).
  • A depreciação é um gasto fixo. Tanto faz vender 5.000 ou 10.000 unidades que o gasto com depreciação será de $2.000. Observe que o gasto fixo é expresso num valor absoluto não associado ao produto e sim ao mês.
  • A energia é um gasto semivariável. O volume de venda dobra, mas o gasto com energia aumenta 75%.

Qual a parcela de gasto fixo de energia e qual a parcela variável?

Será que o consumo de energia é de $500 fixos mais $1 variável por unidade vendida? Ou será $2.000 de gasto fixo mais $1,50 de gasto variável por unidade vendida? É o que iremos ver adiante.

A “explosão” do gasto semivariável de energia é o destaque deste artigo.

Para a solução deste exemplo, vamos partir da seguinte equação geral:

Onde:

  • GT = Gasto Total
  • GFT = Gasto Fixo Total
  • GVT = Gasto Variável Total

Podemos detalhar a equação acima da seguinte maneira:

Onde:

  • GVu = Gasto Variável Unitário
  • Qtde = Quantidade

Essa formulação significa dizer que qualquer gasto poderá ter um componente fixo e outro componente variável.

Vamos aplicar a equação acima para descobrir para os 3 elementos de gasto do nosso exemplo, o componente fixo e variável dentro de cada um.

MATÉRIA PRIMA

Atenção! Sabemos que matéria prima é um gasto 100% variável. Porém, vamos aplicar a equação mesmo assim.

Para o nível de 10.000 unidades, temos:

Leitura: se vendermos 10.000 unidades, gastaremos $10.000 de matéria prima. Estes $10.000 contemplam um GFT não identificado, mais um GVT também não identificado. Este GVT é produto de 10.000 unidades vendidas multiplicado pelo GVu (não conhecido).

Não conseguimos descobrir o componente fixo e o componente variável dentro do gasto com matéria prima consumida de $10.000 pois estamos diante de uma equação de primeiro grau com 2 incógnitas.

Vamos montar a equação para o nível de 5.000 unidades vendidas:

A seguir, vamos analisar os elementos de custo variável e fixo subtraindo a equação de gasto total do maior nível de vendas da equação de gasto total do menor nível de vendas (estamos construindo um sistema de 2 equações de 2 incógnitas cada). Precisaremos eliminar uma delas:

A equação de gasto total da matéria prima é:

Portanto, matéria prima é um gasto 100% variável, algo que já sabíamos até “no visual”, mas agora demonstramos de maneira tecnicamente sofisticada.

DEPRECIAÇÃO

Vamos aplicar a mesma “receita de bolo” que aplicamos para matéria prima, embora saibamos que depreciação é um gasto 100% fixo.

Para o nível de 10.000 unidades vendidas, temos:

Para o nível de 5.000 unidades, temos:

A seguir, vamos conhecer cada um dos elementos de gasto variável e fixo subtraindo a equação do maior nível de vendas da equação do menor nível de vendas:

A equação de custo total da depreciação é:

Sendo assim, a depreciação é um gasto 100% fixo.

ENERGIA

Certamente, são as contas que estão despertando mais curiosidade do leitor.

Para o nível de 10.000 unidades vendidas, temos:

Para o nível de 5.000 unidades vendidas, temos:

A seguir, vamos analisar os elementos de gasto variável e fixo subtraindo a equação do maior nível de vendas da equação do menor nível de vendas:

A equação de gasto total com energia é:

Sendo assim, a energia é um gasto semivariável. Tem um componente fixo de $1.000 e um componente variável de $0,60 por unidade vendida.

CUSTO GLOBAL

Vamos consolidar as 3 equações de gasto total para cada um dos elementos de gasto:

Vamos utilizar esta equação para os níveis de vendas de 5.000 e 10.000 unidades, que estão no enunciado:

Quando identificarmos uma faixa de vendas para construir estatísticas semelhantes a esta, deveremos tomar 2 cuidados:

  1. Preferir período mensal (para evitar um embaralhamento entre os custos fixos e semivariáveis).
  2. Identificar uma faixa de vendas dentro do mês que seja factível em termos de recursos disponíveis e também considere as possibilidades de mercado.

Gastos Variáveis, Fixos e Semivariáveis. Conhecimentos indispensáveis para quem trabalha com análise econômica e financeira

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