Como elaborar o fluxo de caixa pelo método indireto?

Já mostramos aqui que o fluxo de caixa obtido pelo método indireto baseia-se em dados da contabilidade e que os elementos de análise com os quais trabalhamos são as variações das contas contábeis no início e no fim do período considerado. É evidente que, sendo o balanço e o fluxo de caixa retratos de uma mesma realidade, apenas vistos através de prismas diferentes, os dois métodos não podem se contradizer. Daí que o fluxo de caixa obtido a partir dos demonstrativos contábeis deve apresentar os mesmos resultados que o fluxo de caixa elaborado pela Tesouraria, apenas que visto por um outro ângulo.

Vimos, também, que existem três fenômenos que atuam sobre a formação do caixa de uma empresa: o lucro líquido ou o prejuízo ajustados, as variações do ativo e do passivo operacionais e as variações do ativo e do passivo não operacionais.

Neste artigo vamos continuar este assunto, montando o fluxo de caixa pelo método indireto e mostrando algumas situações que exigem cuidados especiais, sem os quais corremos o risco de cometer erros.

Montando o fluxo de caixa pelo método indireto

Para montarmos o fluxo de caixa pelo método indireto nós precisamos, antes de mais nada, do balanço patrimonial da empresa no início e no final do período considerado. A partir daí, podemos calcular a variação de cada uma das contas do ativo e do passivo. Vamos analisar a empresa cujos demonstrativos financeiros em dois anos subsequentes foram divulgados conforme abaixo:

O dono da empresa não se conforma com os resultados apresentados. Ele não compreende como é que, tendo dado um lucro líquido de $ 25.000, o fluxo de caixa tenha aumentado apenas $ 1.000 (diferença de saldo do “Disponível” nos dois exercícios).

“Se a empresa deu lucro” ele pergunta, “porque é que o dinheiro não apareceu?”. Para responder a esta pergunta vamos preparar o fluxo de caixa do exercício pelo método indireto sabendo que:

• A depreciação no período foi de R$ 5.000;
• Os juros apropriados sobre as operações financeiras de curto prazo em aberto foram de R$ 2.500;
• A empresa distribuiu R$ 15.000 de dividendos;
• Os sócios da empresa fizeram um aporte de capital em dinheiro, no período, de R$ 10.000.

1º Passo

O primeiro passo para preparar o relatório do fluxo de caixa pelo método indireto é calcular a variação das contas de ativo e de passivo no período conforme abaixo:

2º Passo

Com base nas variações das contas do ativo e do passivo, preparamos o fluxo de caixa abaixo. Todas as vezes que uma variação liberar recursos para o fluxo de caixa, ela entra com o sinal positivo. Todas as vezes que uma variação retirar recursos do fluxo de caixa, ela entra com o sinal negativo.

Note bem que, no caso acima:

• O acréscimo dos empréstimos de longo prazo de R$ 25.000 foi ajustado pela subtração de R$ 2.500 referente aos juros apropriados mas ainda não liquidados;

• O acréscimo do imobilizado de R$ 20.000 foi ajustado pela subtração de R$ 5.000 referente à Depreciação no período.

Analisando o fluxo acima nós encontramos a explicação para o fato de o lucro não ter conseguido “aflorar” no disponível sob a forma de “Caixa”. Isto aconteceu porque:

1. Os recursos liberados pelas contas de passivo “Fornecedores” e “Outros Exigíveis” foi insuficiente para compensar os recursos retirados do caixa pelos aumentos das contas de Ativo “Duplicatas em Aberto” e “Estoques”. A diferença de $ 18.000 foi financiada pelo lucro líquido da empresa;

2. Apesar de o negócio ter gerado um saldo positivo de caixa de $ 19.500 as atividades não operacionais retiraram do caixa $ 13.500.

Além disto, é interessante observar como o fluxo de caixa obtido pelo método indireto oferece, juntamente com os dados contábeis, uma radiografia da forma como a empresa está sendo gerida. No exemplo acima, mesmo tomando cuidado para não tirar conclusões precipitadas, seria o caso de pesquisar:

• O que causou um aumento tão grande das contas “Duplicatas em Aberto” e “Estoques”?

• Porque a empresa financiou a compra de imobilizado com empréstimos de curto prazo?

Situações especiais

Algumas situações exigem cuidados especiais sem os quais corremos o risco de incorrer em erro. Abaixo damos alguns exemplos destas situações.

• Juros apropriados

Suponhamos que no dia 16 de dezembro a empresa tome $ 100.000 emprestados para pagar, de uma só vez, no dia 15 de janeiro do ano seguinte e que a taxa de juros no período seja de 4%. No dia 31 de dezembro, quando se encerra o exercício social do ano, a empresa é obrigada a reconhecer como despesa os juros de $ 2.000 sobre o empréstimo calculados “pro-rata tempore”, ou seja, proporcionais ao prazo decorrido entre a data de liberação do empréstimo e o encerramento do exercício social.

O saldo da conta “Operações Financeiras” variou, em consequência deste lançamento, de $ 100.000 para $ 102.000. No entanto este aumento de $ 2.000 foi apenas escritural já que o dinheiro somente vai sair do caixa no dia 15 de janeiro quando o empréstimo for liquidado. O dinheiro novo que entrou não foi $ 102.000 mas sim $ 100.000. Sendo assim, nós ajustamos o lucro líquido do exercício pela subtração de $ 2.000 por ser esta uma despesa que não representa saída de caixa.

Consequentemente, nós temos que subtrair os juros apropriados quando considerarmos a variação da conta “Operações Financeiras”. Caso contrário, este valor estaria entrando duas vezes no fluxo da caixa e o saldo final não “fecharia” com o saldo de balanço.

O mesmo raciocínio, só que com os sinais invertidos, aplica-se aos juros apropriados sobre aplicações financeiras.

• Depreciação

A depreciação é uma oportunidade que a legislação fiscal dá às empresas para que elas recuperem, a cada unidade de produto vendido, uma parcela de seu investimento em imobilizado. Esta parcela, que é incluída no custo do produto vendido, é uma despesa puramente escritural já que não representa saída de dinheiro. É por isso que a depreciação é somada ao lucro líquido no cálculo da geração interna de caixa.

Quando a conta “Depreciação Acumulada” está destacada da conta “Imobilizado” as possibilidades de confusão ficam muito reduzidas. O problema surge quando o depreciação acumulada está por dentro da conta “Imobilizado”. Suponhamos que uma determinada empresa tenha adquirido imobilizado de $ 30 ao longo do ano e que a despesa de depreciação no período fosse de $ 2.

Caso o saldo inicial da conta fosse $ 100 o seu saldo final seria $ 98 conforme a planilha abaixo:

Observe que, embora a variação do saldo da conta tenha sido de $ 28, o total despendido com a aquisição de novos ativos foi de $ 30. Em outras palavras, o montante de recursos que foi retirado do “Disponível” foi $ 30 e não $ 28!

Como a depreciação no período já foi somada ao lucro líquido na determinação da geração operacional de caixa por ser uma despesa que não implica em saída de caixa, se ela não for somada à variação do saldo do “Imobilizado” o seu valor será considerado 2 vezes. No entanto esta confusão só ocorre quando a depreciação está “por dentro” da conta de “Imobilizado”.

• Lucro na venda de imobilizado

Vejamos agora o problema do “Lucro na Venda do Imobilizado”.

O “Lucro na Venda do Imobilizado” é a diferença a mais entre o valor de venda de um item do imobilizado e o seu valor de compra ajustado pela depreciação acumulada do bem vendido. Sua fórmula é:

Valor de Venda = Valor de Compra – Depreciação Acumulada + Lucro

A confusão acontece porque o valor que aparece no Demonstrativo de Lucros e Perdas é o “Lucro na Venda do Imobilizado” e o valor que realmente interessa para efeitos do fluxo de caixa é o “Valor de Venda” do imobilizado, o qual não está destacado nos demonstrativos financeiros.

Sendo assim, a primeira coisa a fazer é ajustar o lucro líquido pela subtração do “Lucro na Venda do Imobilizado”. Em seguida a receita com a venda do imobilizado deve ser somada como geração não operacional de caixa.

O mesmo raciocínio, só que com os sinais invertidos, aplica-se ao prejuízo na venda de imobilizado.

• Lucro de equivalência patrimonial

Imagine que sua empresa possua 10% do capital de uma empresa cujo Patrimônio Líquido seja $ 1.000.000. Neste caso, o saldo da conta “Investimentos” do Ativo Permanente seria $ 1.000.000 x 10% = $ 100.000.

Imagine agora que a empresa investida tenha tido um lucro líquido no exercício de $ 200.000 e, em conseqüência, seu Patrimônio Líquido tenha passado para $ 1.200.000. Caso a empresa não tenha distribuído dividendos, o saldo da conta “Investimentos” do Ativo Permanente de sua empresa passaria para $ 1.200.000 x 10% = $ 120.000.

Como em contabilidade nós trabalhamos no sistema de partidas dobradas, a contrapartida do débito de $ 20.000 feito na conta de Investimentos tem que gerar um lançamento de crédito em algum lugar. Este lançamento é feito em uma conta de “Receita” no Demonstrativo de Lucros e Perdas chamada de “Lucro de Equivalência Patrimonial”. O “Lucro de Equivalência Patrimonial” é uma receita puramente escritural já que não gera nenhuma entrada de caixa. Deve ser, portanto, subtraído do lucro líquido na determinação da geração interna de caixa.

Mas atenção! Caso a empresa investida tenha distribuído dividendos, o valor a ser diminuído do lucro líquido para efeito da determinação da geração interna de caixa é o “Lucro de Equivalência Patrimonial” menos o valor dos dividendos recebidos.

O mesmo raciocínio, só que com os sinais invertidos, aplica-se ao prejuízo na venda de imobilizado.

• Despesas pagas antecipadamente

Suponha que sua empresa faça, no dia 1º de janeiro, um seguro cujo prêmio seja $ 12.000 pagos à vista. Embora a empresa tenha tido um desembolso de $ 12.000 no mês de janeiro, como o seguro vai ser usado ao longo de 12 meses, a legislação do imposto de renda manda que se aproprie como despesa, mês a mês, 1/12 do valor do prêmio, ou seja, $ 1.000 por mês.

Esta despesa que é apropriada mês a mês, mas que foi paga antes de começar a ser apropriada, (ao contrário do que acontece com o 13 º salário que é apropriado primeiro e pago no final) é chamada de despesa paga antecipadamente. Situação semelhante acontece, por exemplo, quando se faz a assinatura de um periódico.

Nestes casos ocorrem duas situações distintas. A primeira acontece no momento do desembolso da despesa e a segunda na apropriação da despesa. Analisemos estes dois lançamentos:

1. Pela contratação do seguro e pagamento do prêmio
Débito – “Passivo / Contas a Pagar / Seguros”
Crédito – “Ativo / Caixa e Bancos”
Valor = $ 12.000

2. Pela apropriação da despesa
Débito – “Despesas – Seguros”
Crédito – “Passivo / Contas a Pagar / Seguros”
Valor = $ 1.000

No momento 1 o valor do desembolso será automaticamente capturado pelo fluxo de caixa porque haverá uma variação a maior no saldo da conta passiva “Contas a Pagar – Seguros”. É no momento 2 que temos que estar atentos para ajustar o lucro líquido pela adição de uma despesa que não representou saída de caixa (a saída houve antecipadamente no momento da contratação do seguro).

O mesmo raciocínio, só que com os sinais invertidos, aplica-se às receitas antecipadas.

• Ativo diferido

Imagine que sua empresa vá lançar um novo produto com o qual esteja tendo despesas tais como projeto, montagem de equipes de venda, publicidade, etc. A legislação do imposto de renda permite que estas despesas incorridas antes mesmo do lançamento do produto sejam contabilizadas em uma conta de ativo – denominada “Ativo Diferido”- e apropriadas como “Despesa”, mês a mês, ao longo de cinco anos corridos e contados a partir da data de entrada do novo produto no mercado. Situação idêntica acontece quando se abre uma nova filial, ou loja, ou empresa.

Nestes casos o tratamento a ser dado ao Ativo Diferido para efeito de montagem do fluxo de caixa é semelhante ao das despesas pagas antecipadamente. A dúvida que surge é quanto ao local do fluxo de caixa onde são feitos os ajustes decorrentes do ativo diferido e a resposta é – na geração interna de caixa.

Caso Especial

A empresa Alfa é uma cadeia de lojas muito bem sucedida. Seus dois sócios são pessoas dinâmicas e profundas conhecedoras de seu negócio.

Ultimamente o clima entre os sócios anda tenso. A empresa, segundo o contador, está ganhando dinheiro. No entanto, apesar de possuir reservas e não estar passando por qualquer tipo de aperto financeiro, o fluxo de caixa está longe de corresponder ao lucro que os sócios imaginam que a empresa esteja fazendo. Como a contabilidade, além de não expressar a realidade está muito atrasada, os sócios não sabem porque é que o dinheiro não aparece.

Um dos sócios, justamente o que cuida da parte administrativa e financeira, acusa o outro sócio de estar comprando material de revenda que não gira. Em sua opinião o lucro da empresa está retido em seu estoque. Já o sócio que cuida da área comercial desconfia que esteja havendo desvios de recursos dentro da área financeira.

Diante deste impasse, a empresa contratou uma firma de auditoria para estudar o problema. Os auditores então levantaram todos os dados da empresa durante 4 meses e prepararam os balancetes e o demonstrativo de lucros e perdas em anexo. Na revisão que os auditores fizeram nos procedimentos internos da empresa não ficou evidenciado nenhum desvio de recursos.

Analise os dados contábeis levantados pelos auditores e diga:

1. Em sua opinião, porque é que o lucro da empresa não aparece sob a forma caixa?

2. Você acha que as retiradas que os acionistas têm feito têm fragilizado a estrutura de capital de giro da empresa?

Atenção!

• Na solução deste caso, excepcionalmente, considere, para facilitar, como saldos inicial e final, a soma do disponível mais as aplicações financeiras;

• Ao calcular a Geração Interna de Caixa, utilize como ponto de partida o Lucro Operacional.

Balanços Patrimoniais:

Demonstrativo de Lucros e Perdas:

Gabarito para a Solução do Caso:

Solução do Caso

1º Passo: Determinação do Fluxo de Caixa pelo método indireto

2º Passo: Análise do Fluxo de Fundos

Pela análise vertical do Fluxo de Caixa nós concluímos que:

• A empresa teve, no período, um lucro operacional de R$ 624.048, dos quais apenas R$ 204.421 “afloraram” no “Disponível”;
• Do ponto de vista operacional a empresa parece ter sido bem administrada no período analisado já que:
• A redução do “Passivo de Fornecedores” foi compensada por uma redução semelhante dos “Estoques”;
• O aumento das “Outras Contas a Receber” foi mais do que compensado pela redução do volume de “Recebíveis”.
• O resultado combinado destes fatores liberou para o giro da empresa um caixa de R$ 33.288;
• Quem impediu o lucro de se transformar em “Caixa” foram as atividades não operacionais, principalmente as “Retiradas dos Acionistas”. No total, estas atividades não operacionais retiraram R$ 520.637 do giro da empresa;
• Apesar da expressiva retirada dos acionistas no período, não se pode dizer que isto tenha fragilizado a estrutura de capital de giro da empresa já que seu Ativo Circulante cresceu e seu Passivo Circulante diminuiu, ou seja, a empresa não aumentou sua dependência de capitais de terceiros.

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