Elaboração do fluxo de caixa com base em demonstrativos financeiros.

Empresa que lucra pode quebrar. Verdade ou mentira?

“No dia a dia dos negócios é muito comum escutarmos a seguinte frase: empresa que lucra pode quebrar.

Isto acontece porque a empresa pode estar vendendo muito e não estar recebendo nada.

Imagine a seguinte situação: a empresa vendeu $5.000 em produtos e todos os clientes pagaram com cheques pré-datados. Isto significa que a empresa teve uma receita de $5.000, mas não teve nenhuma entrada de caixa.

Em nossa experiência observamos que grande parte dos problemas de falta de liquidez acontecem em virtude de problemas na administração do fluxo de caixa. Além disto, a elaboração do fluxo permite avaliar alternativas de investimento, a capacidade financeira da empresa, o controle de decisões com impacto monetário etc.

No entanto, apesar de indispensável, o fluxo possui uma certa mística na sua elaboração. Muitos analistas acreditam que não é possível a elaboração deste demonstrativo de fora da empresa.

Neste artigo vamos demonstrar que o fluxo de caixa pode ser preparado de fora da empresa, a partir das demonstrações financeiras, sem prejuízo na sua qualidade que atrapalhe o executivo financeiro”

Os períodos do balanço patrimonial, demonstração de resultados e fluxo de caixa

Antes de iniciarmos o exercício, tenha em mente as seguintes considerações:

O balanço patrimonial mostra a situação patrimonial/financeira da empresa em determinada data. Por isso, quando nos referimos a um balanço, falamos em “balanço encerrado no dia tal”.

O balanço é como uma fotografia da empresa naquela data e mostra todos os componentes em seus valores na data-base.

A demonstração do resultado do exercício (DRE) fornece um resumo financeiro dos resultados das operações da empresa durante um período específico. Por este motivo sempre nos referimos a este demonstrativo da seguinte maneira: “a DRE do mês tal, ou do ano tal ou do dia tal ao dia tal”.

A demonstração do resultado do exercício (DRE) não é estática, fornece um resumo de um determinado período.

Já o fluxo de caixa apresenta a movimentação de recursos ocorrida na empresa em determinado período (mês, ano trimestre, etc.).

Fluxo significa movimento. Portanto, fluxo de caixa pode ser entendido como movimento de caixa.

Método prático para cálculo do fluxo de caixa com base em demonstrações financeiras

Agora, vamos acompanhar passo a passo os balanços patrimoniais e a demonstração de resultados divulgados pela empresa a seguir:

Temos os balanços patrimoniais encerrados em 30/04 e 31/05 e a demonstração de resultados do mês de maio (31/05).

Sabemos que a empresa destinou $1.050 do total de investimentos para a expansão dos negócios. Os custos dos empréstimos estão distribuídos da seguinte forma:

Custo dos empréstimos estruturais = $956 e

Custo dos empréstimos conjunturais = $50.

Para se mostrar como fazer o fluxo de caixa do mês de maio, eis a “receita de bolo”:

Em primeiro lugar, vamos “enxergar” o balanço patrimonial conforme apresentado abaixo. Não é uma apresentação bonita; todavia acreditamos que seja didaticamente eficiente.

Detalhando os procedimentos para elaboração do fluxo

Vamos integrar a demonstração de resultado com a variação nos saldos das contas do balanço patrimonial.

Eis o fluxo de caixa elaborado para o mês de maio de 20X0:

Agora, vamos acompanhar linha por linha como chegamos a cada um dos valores do fluxo de caixa.

Recebimento de vendas = $49.641

($48.408/vendas de maio – $48.408/clientes em 31/5) + $48.000/clientes em 30/4 + ($4.841/desconto de duplicatas em 31/05 – $3.200/desconto de duplicatas em 30/04)

($48.408 – $ 48.408) = $0: é o que entrou em caixa no mês de maio pelas vendas feitas em maio. Ou seja, o saldo de $48.408 de clientes em 31 de maio, que representa toda a venda do mês, será recebido em junho.

$48.000 = é o que entrou em caixa no mês de maio pelas vendas feitas em abril.

($4.841-$3.200) = $1.641 é o que entrou no caixa pelo desconto de duplicatas.

Pagamento de impostos = $4.834

($4.841/impostos de maio – $807/impostos a pagar em 31/5) + $800/impostos a pagar em 30/4

($4.841 – $807) = $ 4.034: é o que saiu do caixa no mês de maio pelos impostos incorridos no mês de maio, ou seja, o saldo de $807 de impostos em 31 de maio será pago em junho.

$800 = é o que saiu do caixa no mês de maio pelos impostos incorridos em abril.

Pagamento de custos = $30.287

($30.497/CMV de maio + $20.331/estoques em 31/5 – $20.160/estoques em 30/4) – $9.201/fornecedores em 31/5 + $10.080/fornecedores em 30/4 – $718/depreciação -$542/amortização do diferido

($30.497 + $20.331 – $20.160) = $30.668. Inicialmente, vamos lembrar de uma das equações contábeis básicas: CMV = Compras + Estoque inicial – Estoque Final, o que implica que Compras = CMV + Estoque final – Estoque inicial. Portanto, o valor de $30.668 mostras as compras realizadas no mês de maio. Compras no seu significado mais abrangente, pois como estamos partindo do CMV, este valor não somente inclui as matérias primas incorridas como os custos com salários e todos os demais custos da operação.

($30.668 – $9.201) + $10.080 = $31.547. As compras de $30.668 não foram totalmente pagas no mês de maio. $9.201 representam compras realizadas em maio e que serão pagas em junho, e $10.080 são saídas de caixa por compras realizadas em abril e pagas em maio.

($31.547 – $718 – $542) = $30.287. Conforme citado, a expressão compras deverá ser compreendida em seu sentido mais abrangente, incluindo não somente as compras de matérias primas como salários e demais custos da produção. A depreciação, embora seja um custo de produção, não impacta no caixa da empresa, razão pela qual é eliminada do cálculo dos pagamentos pelas compras. O mesmo raciocínio é válido para a amortização do diferido.

O cálculo do valor da depreciação foi feito pela variação de saldos da depreciação acumulada (-$24.518/Depreciação acumulada em 31/5– $23.800/depreciação acumulada em 30/4 = $718

O cálculo do valor da amortização foi feito pela variação de saldos da amortização acumulada (-$8.042/amortização acumulada em 31/5– $7.500/amortização acumulada em 30/4 = $542.

Pagamento de despesas = $10.831

$10.831/despesas operacionais de maio

($4.451/despesas comerciais + $7.200/despesas administrativas – $820/provisão para devedores duvidosos) = $10.831. São as despesas operacionais do mês de maio. Não existe qualquer conta de ativo ou passivo que justifique um ajuste às despesas operacionais. Portanto, vamos assumir que toda despesa incorrida no mês de maio foi paga no mês de maio. O aumento de $820 na provisão para devedores duvidosos não afeta o caixa da empresa.

Pagamento do imposto de renda = $502

($502/imposto de renda a pagar em 30/4 + $204/imposto de renda incorrido em maio) – $204/imposto de renda a pagar em 31 de maio

($502 + $204) – $204 = $502. O imposto de renda a pagar em 30 de abril de $502 mais o imposto de renda incorrido em maio de $204, totalizou um imposto de renda a pagar de $708 em 31 de maio. Como a empresa somente registrava um imposto de renda a pagar em 31 de maio de $204, significa que ela pagou em maio imposto de renda no montante de $502.

Recebimento de receitas financeiras = $88

$88/receitas financeiras de maio

$88 = Receitas financeiras no mês de maio. Não existe qualquer conta de ativo ou passivo que justifique um ajuste às receitas financeiras. Portanto, vamos encarar todo este valor como sendo uma entrada de caixa.

Pagamento de juros conjunturais = $50

Este valor é uma saída de caixa correspondente a despesa de juros com empréstimos conjunturais. É uma parte das despesas financeiras que aparecem na demonstração de resultados com valor de $1.006

Amortização de empréstimos conjunturais = $1.000

($1.000/empréstimos conjunturais em 30/4 – $0/empréstimos conjunturais em 31 de maio)

Resultados operacionais = $0

A empresa não realizou operações que afetam esta conta

Fluxo de caixa operacional antes dos investimentos = Recebimento de vendas/$49.641 – pagamento de impostos/$4.834 – pagamento de custos/$30.287 – pagamento de despesas/$10.831 – pagamento de IR e CSLL/$502 + recebimento de receitas financeiras/$88 – pagamento de juros conjunturais/$50 – amortização de empréstimos conjunturais/$1.000 +/- resultados operacionais/$0 = $2.225

 

Investimentos = $1.750

($89.700/imobilizado em 31/5 – $88.000/imobilizado em 30/4 + $32.550/diferido em 31/5 – $32.500/diferido)

$89.700 – $88.000 = $1.700. Aponta os investimentos realizados na aquisição de ativos. Todos os investimentos demandam caixa.

$32.550 – $32.500 = $50. Aponta os investimentos realizados no ativo diferido e também representam uma saída de caixa.

Fluxo de caixa operacional = Fluxo de caixa operacional antes dos investimentos/$2.225 – investimentos/$1.750 = $475

Pagamento de juros estruturais = $956

Este valor é uma saída de caixa correspondente a despesa de juros com a contratação de empréstimos estruturais. É uma parte das despesas financeiras que aparecem na demonstração de resultados com valor de $1.006.

Amortização de empréstimos estruturais = $1.000

($5.000/empréstimos estruturais 30/4 – $4.000/empréstimos conjunturais em 31 de maio)

 

Contratação de novos empréstimos = $850

($20.850/empréstimos estruturais no longo prazo em 31 de maio – $20.000/empréstimos estruturais no longo prazo em 30/04)

 

Fluxo de caixa para o acionista = Fluxo de caixa operacional /$475 – pagamento de juros estruturais/$956 – amortização de empréstimos estruturais/$1.000 + contratação de novos financiamentos/$850 = ($631)

 

Pagamento de dividendos = $214

($214/dividendos a pagar em 30/4 + $90/dividendos em maio) – $90/dividendos a pagar em 31 de maio

($214 + $90) – $90 = $214. Os dividendos a pagar em 30 de abril de $214 mais os dividendos do mês de maio de $90, totalizaram um dividendo a pagar de $304 em 31 de maio. Como a empresa somente devia $90 em 31 de maio, significou que ela pagou dividendos no montante de $214 no mês de maio.

Fluxo de caixa livre = Fluxo de caixa para o acionista / ($631) – pagamento de dividendos/$214= ($845)

Recebimento de empréstimos concedidos a controladas = $200

($1.500/empréstimos em 30/4 – $1.300/empréstimos conjunturais em 31 de maio)

Refere-se ao recebimento de empréstimos concedidos a coligadas/controladas

Integralização de capital = $0

Não houve integralização de capital

Recebimento de dividendos de participações = $12

Entrada de caixa em virtude do recebimento de controladas e coligadas

Outras receitas/despesas não operacionais = $50

Entrada de caixa não operacional de $50

Caixa inicial = $5.000

Refere-se à posição do caixa no início de maio.

Caixa final = Fluxo de caixa livre / ($845) + recebimento de empréstimos concedidos a controladas/$200 + integralização de capital/$0 + Recebimento de dividendos de participações/$12 + Outras receitas/despesas não operacionais/$50 + caixa inicial/$5.000 = $4.417

Comentários

Eventos como venda de imobilizado, entre outros, passam desapercebidos, a menos que destacados em notas explicativas. Outro exemplo: os pagamentos dos gastos com matéria prima, salários, energia e outros não aparecem especificados, e sim consolidados.

Todavia, nada tira a utilidade de nossa metodologia para elaboração de um fluxo de caixa com base em demonstrações financeiras encerradas.

RESUMO DA SOLUÇÃO (DIRETAMENTE PELA VARIAÇÃO DE SALDOS)

O quadro a seguir apresenta a solução do exercício resumida.

Na essência, o fluxo de caixa nada mais é do que a demonstração do resultado “articulada” com as variações dos saldos das contas do balanço patrimonial.

Vendas brutas são associadas à variação no saldo de clientes, CMV é associado à variação no saldo da conta de estoques, fornecedores e depreciação, e assim por diante. Ou seja, cada conta de resultado é associada à sua “cara-metade”.

O somatório das variações dos saldos de cada lado do balanço patrimonial é igual.

Para montar o fluxo de caixa para o mês de maio, vamos “combinar” cada linha da demonstração de resultado de maio com a variação no saldo de sua “parceira” no balanço patrimonial.

Observações importantes:

  • Observe que a empresa amortizou $1.000 de empréstimos conjunturais ($1.000/ empréstimos conjunturais em 30/04 – $0/ empréstimos conjunturais em 31/05) e $1.000 de empréstimos estruturais ($5.000/ empréstimos estruturais em 30/04 – $4.000/ empréstimos estruturais em 31/05). Estes valores aparecem no passivo circulante da empresa.
  • Os empréstimos estruturais estão associados às decisões na estrutura de capital da empresa. Por este motivo os juros destes empréstimos são classificados após o fluxo de caixa operacional que é o fluxo de caixa antes do pagamento dos custos com a estrutura de capital e outras entradas e saídas de caixa.
  • Por sua vez os empréstimos conjunturais estão associados aos passivos operacionais da empresa como, por exemplo, o pagamento de fornecedores, salários, impostos etc. Por este motivo estão classificados antes do fluxo de caixa operacional.
  • Como dissemos no início do exercício, do total de despesas financeiras ($1.006) que aparecem na demonstração de resultados $50 são referentes ao pagamento de juros conjunturais. A diferença ($956) é referente ao pagamento de juros estruturais.
  • Simultaneamente à amortização de $1.000 de empréstimos estruturais no passivo circulante, a empresa contratou um novo empréstimo estrutural de $850 que aparece no exigível a longo prazo. ($20.850/ em 31/05 – $20.000/ em 30/04). No fluxo de caixa este valor também aparece após o fluxo de caixa operacional.

Elaboração do fluxo de caixa com base em demonstrativos financeiros.

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