Determinação do Fluxo de Caixa em Risco: maior clareza nas decisões, melhor planejamento

A gestão de risco de mercado em empresas não-financeiras tem como um de seus focos lidar com a incerteza associada aos valores futuros do fluxo de caixa. O valor do fluxo de caixa em risco pode ser mensurado pela aplicação da ferramenta de Cash Flow at Risk (CF@R – ou CFaR). Este apresenta semelhança com o V@R (Value at Risk), utilizado na mensuração de riscos de empresas financeiras: o CF@R é simplesmente o valor mínimo de um fluxo de caixa no final de um período, a um nível estatístico de confiança pré-determinado, e que também pode ser medido em relação a uma meta da companhia.

O CF@R se apresenta como uma robusta medida de risco corporativo, pois permite aprimorar a compreensão da dinâmica de risco de um negócio e como esse perfil de risco pode mudar devido a mudanças de preços, entrada de novos produtos ou novas regiões para atuação, aquisição de outros negócios ou a entrada em produção de novos projetos. Geralmente, ele se concentra no risco de mercado que afeta os fluxos de caixa da empresa, embora em menor medida riscos políticos, operacionais, ambientais e jurídicos também o possam afetar.

Exemplificando: suponha que o fluxo de caixa previsto para os próximos 12 meses seja de R$ 15 bilhões. Como a vida real é cercada de incertezas, suponha que através de uma “bola-de-cristal” se preveja que o cenário de maior probabilidade seja R$ 10 bilhões. O CF@R será de R$ 5 bilhões: diferença entre o original, R$ 15 bilhões, e o valor que acumule “maior probabilidade”, os R$ 10 bilhões. Isso significa que há uma probabilidade de 95% de que o fluxo de caixa nos próximos 12 meses tenha uma queda (em relação ao orçado) de menos de US $ 5 bilhões, ou, complementarmente, há uma probabilidade de 5% que a queda seja maior que R$ 5 bilhões.

O processo CF@R

Os passos no processo de quantificação do CF@R serão normalmente os seguintes:

– Elaborar um mapa de risco completo;

– Analisar estatísticas sobre as variáveis drivers de mercado;

– Criar um modelo de obtenção de probabilidades;

– Definir o impacto potencial na linha de negócios.

O processo do CF@R é de responsabilidade da função de Finanças como a “owner” dos riscos financeiros. Entretanto, a área contábil e as outras unidades de negócios também devem fornecer dados. Pode-se observar ainda que:

  • O período de cálculo pode variar de um trimestre até dois anos, ou mesmo cinco anos
  • As premissas obtidas do mercado devem ser testadas quanto ao estresse para entender o impacto de condições anormais
  • O teste retroativo dos resultados (“back testing”) pode fornecer informações valiosas sobre quanto o modelo é “preditivo, ou não
  • Maior peso pode ser dado aos dados recentes se for considerada mais relevante (ponderação exponencial).

O CF@R é realmente útil?

O valor do CF@R não reside tanto nos números que provém em si, e mais no benefício de fazer um mergulho profundo em todos os fatores de risco e nos direcionadores de fluxo de caixa, e as valiosas informações que isso proporciona à administração. Além do mais:

  • A dinâmica do portfólio financeiro será muito melhor compreendida.
  • É relativamente fácil calcular e agrega o risco da carteira em um único indicador.
  • Gera a oportunidade de uma discussão mais ampla sobre risco em toda a organização.
  • Pode atuar como freio ao risco excessivo e pode dar suporte à consistência na tomada de decisões.
  • Ajuda a evitar assumir posições de hedge desnecessárias ou onerosas, dada a existência de hedges “naturais”, ou seja, onde o nível de risco da carteira é substancialmente menor do que a soma dos riscos gerados pelos fatores individuais.
  • Se o risco de mercado é gerenciado em nível de carteira, as unidades de negócios podem se concentrar totalmente em suas missões operacionais (produção, custo e segurança).
  • Cenários e suposições diferentes podem ser modelados e testados quanto ao estresse, por exemplo, considerar como diferentes cenários de CF@R podem afetar o FFO (fundos das operações – funds from operations) e o índice de dívida. A empresa pode usar essas informações para garantir que possíveis problemas (por exemplo, pressão para melhoria na classificação de crédito dos birôs ou agências de risco) possam ser gerenciados proativamente.

Ao definir os limites do CF@R, eles devem estar vinculados ao impacto na capacidade de endividamento e na flexibilidade financeira, por exemplo. Ele será tipicamente definido com referência a gatilhos de “rating” de crédito (por exemplo, endividamento líquido).

Uma razão CF@R para fluxo de caixa pode ser útil para mostrar como o grau de risco da empresa está mudando. Se eventualmente aumenta por estar associado a valores maiores de fluxo de caixa, uma maior volatilidade destes fluxos se torna aceitável.

Um bom ponto de partida

A metodologia CF@R não tem valor como uma aproximação da medida do “downside risk”, risco do retorno real estar abaixo do esperado. Também não se propõe a fazer previsões de “como as coisas podem ficar ruins” e deve ser visto como o ponto de partida do processo de gerenciamento de riscos da empresa, não seu ponto final.

Um comitê de risco competente que tenha domínio da técnica do CF@R estará bem posicionado para utilizá-lo como apoio à decisão, tornando-o uma importante ferramenta para suportar a tomada de decisão. Isso significa que o CF@R, como parte de uma estrutura mais ampla de gerenciamento de riscos, não apenas ajudará a resguardar a saúde financeira da organização, mas também contribuirá para a criação de valor aos acionistas.

Sobre o autor

Marcos Fattibene

Desde 2.010 é diretor geral da FBS Risk Management e responsável, como consultor e líder de treinamento, pelas divisões de Finanças e de Métodos Quantitativos. Durante este período, atuou na em projetos de Valuation, modelagem estatística, reformulação de processos e de políticas de negócios em clientes multinacionais ou locais. É Mestre em Engenharia de Produção pela UFSCar, engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP, professor dos cursos in-Company do IBMEC, colunista da Revista CollBusiness, especializada no setor de Crédito & Cobrança e Certificado PMP pelo Project Management Institute (PMI.org).

Em 25 anos de carreira corporativa, atuou em instituições financeiras do segmento bancário, de serviços financeiros, de crédito e de gestão de fundos de investimentos em empresas nacionais e multinacionais de grande porte.

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