Converter Demonstrações Contábeis Brasileiras para a Moeda Americana

Cada vez mais as empresas têm buscado recursos para financiar seus projetos com fontes externas, seja através de investidores ou através de empréstimos, sendo muitas vezes necessário padronizar suas demonstrações contábeis para a moeda americana.

Por isso torna-se importante para os executivos saberem converter suas demonstrações financeiras da moeda brasileira para a americana, o dólar.

Neste artigo, serão mostrados os aspectos gerais da conversão de demonstrações contábeis bem como as diferenças fundamentais entre os princípios contábeis brasileiros e americanos.

A diferença entre “Conversão de Demonstrações Contábeis” e “Contabilidade em Moeda Estrangeira”

Muitas vezes confundimos os termos “conversão de demonstrações financeiras” e “contabilidade em moeda estrangeira”. Apesar dos nomes parecidos, os termos identificam coisas diferentes.

Na contabilidade em moeda estrangeira todas as operações, na medida em que são feitas, são convertidos e lançadas no sistema contábil próprio, e ao final do período, as demonstrações contábeis apresentadas já estão em moeda estrangeira.

Na conversão de demonstrações contábeis para moeda estrangeira, a contabilidade é em moeda local, isto é, a brasileira. Somente após apuradas as demonstrações contábeis é que elas são convertidas.

” Contabilidade em moeda estrangeira pressupõe a existência de um sistema contábil em moeda estrangeira, onde as operações, à medida em que são feitas, já estão em moeda estrangeira.

Conversão de demonstrações financeiras pressupõe a existência de uma contabilidade em moeda nacional que servirá de base para a conversão dos demonstrativos financeiros para outra moeda. “

Objetivo da Conversão de Demonstrações Contábeis

O que leva uma empresa a converter suas demonstrações contábeis para outra moeda?

Entre os principais objetivos podemos destacar:

a) Obter demonstrações contábeis em moeda forte, sem os efeitos da inflação;

b) Permitir ao investidor estrangeiro um melhor acompanhamento do seu investimento (principalmente no caso de investidores americanos);

c) Possibilitar a aplicação do método da equivalência patrimonial sobre os investimentos efetuados em diversos países; e

d) Possibilitar a consolidação e combinação de demonstrações contábeis de empresas situadas em diversos países.

Quais são os Métodos de Conversão de Demonstrações Contábeis?

Os métodos de conversão de demonstrações contábeis são três:

• Câmbio de fechamento: neste método todos os itens são convertidos pela taxa de câmbio vigente na data de encerramento das demonstrações contábeis, isto é, pela taxa corrente. Normalmente o câmbio de fechamento é utilizado onde a economia é estável, com baixíssima taxa de inflação.

• Monetário e não monetário: neste caso, os itens das demonstrações contábeis são classificados em:

Monetários: Disponibilidades ou obrigações que serão realizadas ou exigidas em dinheiro (caixa, duplicatas, PDD, etc.) – itens convertidos pela taxa corrente (veja mais adiante definição acerca de taxas de conversão).

Não monetários: São os direitos e obrigações que serão exigidos em bens ou serviços (estoques, adiantamentos a fornecedores, investimentos permanentes, PL, etc.) – itens convertidos pela taxa histórica.

• Temporal: neste, os itens patrimoniais são classificados de acordo com a base de valor adotada para avaliação, que pode ser a valor passado, valor presente ou valor futuro, sendo classificados como segue:

Itens monetários prefixados: convertidos pela taxa corrente ou prevista (duplicatas, etc.)

Itens monetários pós-fixados: taxa corrente (contas a receber e a pagar, aplicações financeiras indexadas, etc.)

Itens não monetários realizáveis: taxa histórica (estoques, avaliados ao custo histórico, etc.)

Itens não monetários permanentes e PL (Patrimônio Líquido): taxa histórica.

• Taxa de conversão

Em função da particularidade de cada conta patrimonial, convencionou-se utilizar alguns tipos de taxa de conversão, dependendo da conta a ser convertida.

Confira abaixo os tipos de taxa e sua utilização.

Tipo de Taxa Utilidade
Histórica Utilizada no momento da ocorrência. A compra de um equipamento seria contabilizada pela taxa do dólar do momento da compra.
Corrente (ou fechamento) Utilizada quando uma operação está sendo realizada ou no encerramento do exercício (fechamento). Todas as operações de pagamentos e recebimentos são convertidas pela taxa corrente.
Fechamento Taxa vigente na data de encerramento das demonstrações contábeis. O caixa no encerramento do balanço será convertido pela taxa de câmbio na data de fechamento.
Média Média das taxas vigentes em determinado período. Normalmente utilizada para a conversão de itens de demonstração do resultado (vendas, custos, etc.)
Projetada Utilizada em economias com hiperinflação. Converte itens de vencimento futuro.

• Moeda local, funcional e do relatório

Estas definições são utilizadas pela FAS 52, que é a norma que rege a conversão de demonstrações contábeis para moeda estrangeira.

Moeda local é a moeda do país onde a empresa se localiza, em nosso caso, é o Real.

Moeda funcional é a moeda do principal sistema econômico em que o conglomerado opera. Pode ser o dólar ou outra moeda estrangeira. Não se recomenda utilizar como moeda funcional moeda de economias que tenham alta inflação. No Brasil, apesar dos últimos anos com baixos índices de inflação, não se recomenda utilizar o Real como moeda funcional em virtude do passado recente de inflação alta. Neste caso, recomenda-se utilizar o Dólar ou então a moeda mais estável do conglomerado.

Moeda do relatório é a moeda para a qual iremos converter os demonstrativos contábeis (dólar, por exemplo).

Portanto, o procedimento para a conversão das demonstrações contábeis é o seguinte:

• Converter o relatório de moeda local para funcional, utilizando o roteiro a seguir;

• Converter o relatório em moeda funcional para moeda do relatório. Se a moeda do relatório e a funcional forem as mesmas, nada se faz.

Ganhos e Perdas na Conversão

Os ganhos e perdas na conversão decorrem das variações nas taxas de câmbio sobre os itens monetários. Em regimes inflacionários, ativos monetários geram perdas na conversão e os passivos geram ganhos.

Exemplo:

Duplicata a receber – perda

Data Valor em R$ Valor US$ Valor US$
Venda 31/7 1.000 1 1.000
Recebimento 31/8 1.000 1,10 909,1
Perda 90,9

Neste caso houve perda, pois recebeu-se menos em dólar do que na data da venda.

Fornecedores – ganho

Data Valor em R$ Valor US$ Valor US$
Compra 31/7 1.500 1 1.500
Pagamento 31/8 1.500 1,10 1.363,6
Ganho 136,4

Neste caso houve ganho, pois pagou-se menos em dólar do que na data da compra.

Se por alguma razão a taxa de conversão diminuísse, o resultado seria o inverso em ambas as situações.

Roteiro para Conversão de Demonstrações Contábeis

Os procedimentos a serem seguidos para a conversão de demonstrações financeiras são os seguintes:

1. Apuração do resultado e elaboração do balanço patrimonial em moeda local;

2. Classificação dos itens patrimoniais de acordo com a base de valor adotada (passado, presente e futuro);

3. Conversão dos itens patrimoniais, seguindo a regra:

Item Taxa de conversão para moeda funcional
Monetários prefixados (duplicatas, etc.) Corrente
Monetários pós-fixados (caixa, dívidas) Corrente
Não monetários (estoques, adiantamentos, PL) Histórica

4. Ajustar o resultado e o balanço patrimonial para adequá-los ao USGAAP, que são:

Item Princípios Contábeis Brasileiros Princípios Contábeis americanos (USGAAP)
Despesas financeiras sobre o financiamento de ativo imobilizado Apropriado como despesa financeira Pode ser incluído no custo de aquisição
Leasing Os pagamentos são apropriados como despesa, com a ativação do bem no momento da realização da opção de

compra (para leasing financeiro isto ocorre desde o início da operação)

Os bens arrendados são ativados desde o início da operação. Leasing operacional é contabilizado como despesa de aluguel
Depreciação Calculada com base na vida útil média Calculada de acordo com a vida útil real

(medida em termos de tempo ou capacidade de produção)

Despesas incertas (contingências, etc.) Normalmente provisionadas as que sejam

dedutíveis em termos fiscais.

Provisionada sempre que a perda seja provável
Devedores duvidosos Provisionada de acordo com o limite Provisionada pelo valor estimado
Avaliação de estoques PEPS, custo médio ou valor arbitrado fiscalmente Custo médio, PEPS ou UEPS
Participações societárias permanentes Custo de aquisição ou equivalência

patrimonial

Algumas participações podem ser avaliadas pela equivalência em dólar

5. Obter por diferença de patrimônio líquido, anterior e atual, o resultado acumulado

6. Elaborar a demonstração do resultado acumulado e obter por diferença o lucro líquido:

Item Taxa de Conversão
Saldo inicial Histórica
Ajuste de exercícios anteriores Histórica do respectivo período anterior
Dividendos distribuídos Histórica de quando foram gerados
Outras operações Histórica do período original correspondente
Lucro líquido do exercício Obtido por diferença
Saldo final Obter do balanço encerrado

7. Classificar as receitas e despesas de acordo com a contrapartida das mesmas nos itens patrimoniais e convertê-las, conforme tabela:

Receitas e despesas Contrapartida Taxa de conversão
Receitas e despesas monetárias prefixadas (receita) Ativos ou passivos monetários prefixados (D/R) Média
Receitas e despesas pós-fixadas (salários e encargos) Provisões passivas (salários a pagar) Média
Receitas e despesas não monetárias (CMV, depreciação) Ativos e passivos não monetários Histórica
Receitas e despesas financeiras (variação cambial, juros) Ativos ou passivos monetários

(pós-fixados)

Média (*)
Imposto de renda Provisão para IR Média (o diferido em US$ não é convertido, pois já está em dólar)
Equivalência patrimonial Investimentos permanentes Calculado em dólar

(*) variação proveniente de variação cambial não é convertida, já que o empréstimo/ aplicação indexado já está em moeda estrangeira.

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