Como fazer “rapidamente” projeções de demonstrações financeiras? Qual o melhor método para uma projeção rápida?

O objetivo principal de uma metodologia para projetar “rapidamente” demonstrações financeiras não é o de “acertar” os principais números a serem mostrados no Balanço Patrimonial, na Demonstração do Resultado e no Fluxo de Caixa.

O objetivo principal é ajudar os administradores a tomarem decisões de maneira mais rápida e eficaz, com base em números que representam o esforço do melhor julgamento possível na definição do banco de premissas.

Se este objetivo for cumprido, a projeção realizada terá cumprido sua missão. Caso os resultados projetados batam com a realidade, melhor ainda.

É importante notar que quando se parte para um trabalho de projeção de demonstrações financeiras, deve-se fazer duas distinções importantes:

  • Precisão quanto à metodologia utilizada. “O ativo deve fechar com o passivo”, caso contrário, algum procedimento adotado está errado, e
  • Consistência/qualidade do banco de premissas

Portanto, neste texto mostraremos o método para se projetar “rapidamente” o balanço patrimonial, a demonstração de resultado e o fluxo de caixa. Os termos Projeção de Demonstrações Financeiras, Projeção de DFs, Projeções Financeiras e Projeção Financeira terão o mesmo significado.

Aplicações de uma projeção financeira rápida

Uma projeção financeira rápida pode ser usada para as seguintes finalidades:

  • Concessão de crédito: para verificar a capacidade do tomador dos recursos pagar o serviço da dívida (juros e amortizações) nas condições
  • Valorização de participações acionárias minoritárias ou majoritárias: para determinar o fluxo de caixa projetado ou o fluxo de
  • Análise de projetos de investimento: para estimar o fluxo de caixa que respaldará o cálculo da Taxa Interna de Retorno (TIR) e do Valor Presente Líquido (VPL).
  • Análises econômicas e financeiras prospectivas de caráter geral: impactos das políticas de crédito e de estocagem, definição da estrutura de capital, impactos de uma redução de preços de vendas ou elevação de custos, e outras análises de

Dificilmente uma análise econômica e financeira com base em relatórios passados levará a alguma conclusão definitiva. A análise econômico-financeira retrospectiva tem como principal missão fornecer subsídios para a elaboração de projeções financeiras através da identificação de tendências.

Projeção Financeira Rápida versus Orçamento Empresarial

Um orçamento empresarial deverá ser preparado de maneira detalhada. Ele se prestará para fins de controle e decisão. Como servirá para controle, o detalhe será importante para identificar e corrigir todos os desvios ocorridos entre o orçado e o realizado.

Uma projeção rápida de demonstrações financeiras (breve orçamento) somente servirá para apoiar qualquer decisão. Decisão sobre um novo projeto, decisão sobre a compra ou venda de uma participação acionária, decisão sobre os impactos de um aumento nos preços de venda, decisão sobre os impactos de uma redução nos custos, ou seja, inúmeras decisões.

Em uma projeção rápida de demonstrações financeiras haverá um pequeno sacrifício na precisão das informações projetadas em benefício de uma rapidez nas respostas necessárias para apoiar a decisão.

Recomendamos que todas as empresas possuam 2 sistemas para análises prospectivas:

  1. Um modelo orçamentário detalhado, para fins de controle, e
  2. Um modelo para projeção rápida de demonstrações financeiras, mais simplificado, para apoiar decisões.

O quanto simplificar? Vai variar de empresa para empresa. Cada usuário vai tomar a sua empresa e encontrar uma “explosão” suficiente para preservar a rapidez nas respostas sem comprometer excessivamente as precisões dos valores.

Projeção em Moeda Constante versus Projeção em Moeda Corrente

A projeção em moeda constante significa que todos os valores projetados estão a preços da data de elaboração das projeções. Isto significa dizer que não há impacto inflacionário nas contas, e as variações que ocorrerem serão variações reais.

Exemplo: Se o valor da conta de fornecedores for de $1.000 em 31/8/20X1 e projeta-se $1.100 para 30/9, significa dizer que esta conta teve um aumento real de 10%, porque os $1.100 estão a preços de 31/8.

Agora, se estivermos trabalhando com uma inflação de 5% no mesmo período, significa dizer que o crescimento real foi de:

Apesar de nossa legislação não prever mais a elaboração de demonstrativos em moeda constante, sugerimos que para fins gerenciais, as projeções sejam feitas seguindo os fundamentos de elaboração de relatórios em moeda constante, pelo fato de que a análise de contas projetadas, principalmente no caso de períodos muito extensos, fica mais confiável pois as variações que vemos correspondem apenas às variações reais projetadas, e não devidas à inflação.

Resumindo: assume-se a moeda da data base para elaboração das projeções financeiras, como 31/8/20X1. A partir desta data, é como se não existisse mais inflação. Todas as variações de preço assumidas para mais ou para menos terão significado real.

Projeções Importantes

A projeção de Vendas é a mais importante. Se ela “furar”, todas as demais estimativas estarão comprometidas, e consequentemente o trabalho de projeção como um todo.

Na sequência aparecem como projeções mais importantes a do Custo das Mercadorias Vendidas (ou nome assemelhado) e das Despesas Operacionais.

Projeções Financeiras para Empresas Sazonais

A metodologia para fazer as projeções financeiras de uma empresa sazonal é idêntica à metodologia utilizada para fazer a projeção de uma empresa não sazonal.

A recomendação que fazemos é a seguinte:

A elaboração de projeções financeiras de empresas sazonais deverá ser feita necessariamente em bases mensais, cabendo a cada mês um banco de premissas específico.

Exemplo de uma empresa com produtos de safra:

  • No 1o semestre: Vendas baixas, Margens apertadas, Produção elevada, Elevados estoques, Déficit de caixa, etc.
  • No 2o semestre: Vendas altas, Margens elevadas, Produção mínima, Redução nos estoques, Superávit de caixa, etc.

Como Fazer uma Projeção Financeira

Nas páginas seguintes iremos trabalhar com a projeção dos demonstrativos financeiros integrando Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado e Fluxo de Caixa, projetando as contas mais comuns e utilizando vários métodos de projeção.

Nossa projeção neste texto partirá de um Balanço Patrimonial e uma Demonstração do Resultado referentes ao mês de dezembro/20X0, sendo que faremos a projeção financeira completa para janeiro de 20X1 (31 dias corridos).

A metodologia que iremos utilizar para projetar o período de 1 mês é idêntica àquela que utilizaríamos para projetar um período de 3 meses ou 1 ano. A única diferença é que as premissas que estamos definindo em bases mensais passariam a ser definidas em bases trimestrais ou anuais. Exemplo: a taxa de juros de 1% ao mês passaria a ser de 3% ao trimestre ou 12% ao ano.

IMPORTANTE: utilizaremos contas “T” para ajudar no entendimento da integração do Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado e Fluxo de Caixa. Uma projeção financeira não deixa de ser um exercício de contabilidade futura ou contabilidade projetada. Cada débito corresponde a um crédito de igual valor. Portanto, a Ativo e o Passivo estarão iguais ao final do trabalho.

As premissas se desenvolverão no decorrer do exemplo de modo a facilitar a sua compreensão.

Esta projeção será feita em moeda constante, portanto sem considerar efeitos inflacionários nas contas.

 

LEMBRETE FUNDAMENTAL: Os procedimentos apresentados a seguir estão simplificados. O leitor não precisa definir um modelo tão enxuto para sua empresa. Pode explodir um pouco mais, sem perder a característica de um modelo para projeção rápida de demonstrações financeiras.

 

1. Vendas Brutas

Iremos projetar as vendas para janeiro de 20X1 em relação às vendas de dezembro de 20X0.

As vendas de dezembro de 20X0 foram de $5.000. Vamos trabalhar com uma variação positiva de 0,5% nos preços e de 0% por volume. Temos, portanto:

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Caixa e crédito no Resultado (1A).

Os lançamentos são identificados pelo número do ítem (neste caso, 1) associado a uma letra. Caso haja apenas um único lançamento, aparecerá “1A”; se tiver mais lançamentos, teremos as letras, B, C e daí por diante.

 

2. Impostos

 

O valor de impostos para janeiro de 20X1 corresponderá à mesma relação impostos sobre as vendas existente em dezembro de 20X0.

Relação em dezembro de: $500 / $5.000 = 10%

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Resultado e crédito no Caixa (2A).

3. Custo das Mercadorias Vendidas

Iremos separar o valor de CMV entre partes fixa e variável. A parte variável representada principalmente pelas matérias-primas e a parte fixa pela mão-de-obra. Este tipo de separação é útil quando fizermos análises de alavancagem operacional (impacto no lucro operacional de uma variação nas vendas, mantendo os custos fixos constantes).

Neste caso, 50% do CMV é representado pela parte fixa e 50% pela parte variável.

O cálculo do CMV poderá ser feito como uma variação em relação ao saldo anterior ou então como uma alíquota sobre as vendas (brutas ou líquidas).

Para janeiro, iremos projetar uma variação de 0% tanto em preço quanto em volume para a parte fixa e 1% para preço e 0% para volume na parte variável.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Resultado e crédito no Caixa (3A).

 

4. Despesas Operacionais

Seu cálculo poderá ser feito pela variação em relação ao saldo anterior ou como uma porcentagem sobre as vendas.

As despesas operacionais não sofrerão nenhuma variação em janeiro.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Resultado e crédito no Caixa (4A).

 

5. Duplicatas a Receber

Calcula-se duplicatas a receber (bem como a pagar e estoques) pelo seu giro, isto é, pelo número de dias de vendas a prazo.

O cálculo de duplicatas a receber é feito da seguinte forma:

Duplicatas a receber = (Vendas brutas de janeiro / número de dias do período) x Prazo médio de recebimento de duplicatas

Para janeiro, vamos projetar um prazo médio de recebimento de duplicatas de 17 dias.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito em Duplicatas a Receber e crédito no Caixa (5A).

 

6. Estoques

Esta conta segue o mesmo procedimento da conta de duplicatas a receber, isto é, calcula-se pelo giro de estoques. O cálculo de estoques é feito da seguinte forma:

Estoques = (Custo das Mercadorias Vendidas de janeiro / Número de dias do período) x Prazo médio de rotação de estoques.

Para janeiro, vamos projetar um giro de 20 dias.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito em Estoques e crédito no Caixa (6A).

 

7. Diversos créditos de longo prazo

Normalmente estes tipos de contas não possuem qualquer correlação com as vendas projetadas nem com o CMV projetado, sendo difíceis de serem estimadas. Por isso, usamos como método de projeção a variação em relação ao saldo anterior.

Sua fórmula é: Diversos créditos em 31/12 vezes a variação estimada = Saldo final de diversos créditos em 31/1.

Para janeiro, estima-se uma redução de 50% nesta conta.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito Caixa em e crédito em Diversos créditos de CP (7A).

 

8. Imobilizado bruto

O saldo projetado de imobilizado bruto para 31 de janeiro é o seguinte:

Saldo de imobilizado bruto em 31/12 + Investimentos em janeiro = Saldo final de imobilizado bruto em 31/1.

Estima-se investimentos operacionais da ordem de $300 para janeiro:

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito em Imobilizado bruto e crédito no Caixa (8A).

 

9. Depreciação

O cálculo da depreciação é feito da seguinte forma:

Imobilizado bruto em 31/12 x Alíquota de depreciação para janeiro. Este valor encontrado soma-se ao saldo de 31/12 de depreciações acumuladas.

A alíquota de depreciação é de 1% ao mês, sendo 80% correspondentes levadas a custo e 20% a despesa.

Portanto, $60 (80% de $75) estão dentro do CMV estimado de $3.015 (ítem 3). Os outros $15 (20% de $75) estão embutidos na Despesa operacional de $500 (ítem 4).

Observação: Leia agora no final desta seção os lançamentos de débito no Caixa e crédito em Depreciação acumulada (9A). Na conta “T” Fluxo de Caixa, a linha de depreciação aparece ajustada ao CMV e à Despesa Operacional.

 

10. Fornecedores

Sua metodologia de projeção segue o mesmo princípio utilizado para a projeção de duplicatas a receber e estoques. Sua fórmula é:

(CMV de janeiro / número de dias do mês de janeiro) x Prazo médio de pagamento de fornecedores.

Para janeiro, iremos considerar um prazo médio de pagamento de fornecedores de 18 dias.

Observação: Leia agora nas páginas 19 e 20 o lançamento de débito no Caixa e crédito em Fornecedores (10A).

 

11. Impostos a pagar

A projeção desta conta é feita da mesma forma que o cálculo de fornecedores, sendo que, ao invés de associarmos ao valor de CMV/dia, associados ao valor de impostos/dia:

(Impostos de janeiro / número de dias de janeiro) x Prazo Médio de Pagamento de Impostos. Para janeiro, o prazo será de 15 dias.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Caixa e crédito em Impostos a pagar (11A).

 

12. Vendas brutas a nível de caixa

Este valor corresponde às vendas estimadas do mês de janeiro e recebidas em janeiro ($5.025 – $2.756), mais as vendas realizadas em dezembro e recebidas em janeiro ($2.500). Sua fórmula é:

Vendas janeiro – Duplicatas a receber (31/1) + Duplicatas a receber (31/12).

Observação: Leia no final desta seção na conta “T” Fluxo de Caixa as linhas Vendas brutas, Duplicatas a receber e Vendas/Caixa. Observe a conta “T” Duplicatas a Receber (12A).

 

13. Impostos a nível de caixa

Este valor corresponde ao valor dos impostos estimados do mês de janeiro pagos em janeiro ($503 – $243), mais o valor de impostos incorridos em dezembro e pagos em janeiro ($250). Sua fórmula é:

Impostos (janeiro) – Impostos a pagar (31/1) + Impostos a pagar (31/12).

Observação: Leia agora no final desta seção na conta “T” Fluxo de caixa as linhas Impostos, Impostos a pagar e Impostos/caixa. Observe a conta “T” Impostos a pagar (13A).

 

14. CMV a nível de caixa

Corresponde ao valor das compras feitas em janeiro e pagas em janeiro, mais as compras feitas em dezembro e pagas em janeiro, ajustando-se ao final, à depreciação. Sua fórmula é:

CMV (janeiro) + Estoques (31/12) – Estoques (31/1) + Fornecedores (31/1) – Fornecedores (31/12) – Depreciação (calculada no item 9).

Observação: Leia agora no final desta seção na conta “T” Fluxo de Caixa as linhas Custo das Mercadorias Vendidas, Estoques, Fornecedores e Depreciação. Observe as contas “T” Estoques, Depreciação acumulada e Fornecedores (14A e 14B).

 

15. Despesas operacionais a nível de caixa

É o valor das despesas operacionais menos a parcela da depreciação atribuível à despesa. Este valor já foi lançado no caixa. Sua fórmula é:

Despesas operacionais (janeiro) – Depreciação (calculada no item 9).

Observação: Leia agora no final desta seção na conta “T” Fluxo de Caixa as linhas Despesas operacionais, Depreciação e Despesas Operacionais/caixa.

 

16. Pagamento de IR

É o valor do IR a pagar em dezembro/20X0.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito em IR a pagar e crédito no Caixa (15A).

 

17. Fluxo de caixa operacional aplicado

Corresponde à aplicação da taxa de juros de 0,0099% sobre o saldo do fluxo de caixa operacional (página 19) por 15 dias. Sua fórmula é:

Fluxo de caixa operacional (já calculado na página 19) + Receita financeira

18. Receita financeira

A receita financeira total é dada pela soma da receita financeira proveniente do FCO mais a aplicação da taxa de juros sobre o saldo de disponível e aplicações da empresa.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito em Caixa e Disponível e Aplicações e crédito no Resultado (16A).

19. Pagamento de dividendos

É o valor de dividendos em dezembro/20X0

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Dividendos a pagar e crédito no Caixa (17A).

 

20. Despesa financeira

Calcula-se pela aplicação da taxa de juros sobre o saldo inicial de empréstimos.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Resultado e crédito no Caixa (18A).

 

21. Provisão para IR e CS

Aplica-se sobre o lucro antes do IR e CS a alíquota de 33%. Sua fórmula é a seguinte: Lucro antes do IR e CS x Alíquota de IR/CS

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Resultado e crédito em IR a pagar (19A).

22. Dividendos a pagar

É o valor do lucro após o IR e CS multiplicado pela alíquota de dividendos:

Lucro líquido após IR e CS x Alíquota de dividendos.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Resultado e crédito em Dividendos a pagar (20A).

 

23. Lucros acumulados

É a soma do saldo inicial de lucros acumulados mais o lucro final do período. Sua fórmula é:

Lucros acumulados (31/12) + Lucro líquido do período.

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito no Resultado e crédito em Lucros acumulados (21A).

 

24. Disponíveis e aplicações

É o valor do fluxo de caixa final mais o resgate total das aplicações financeiras. Sua fórmula é:

Fluxo de caixa final (calculado na página 19) + Baixa de Disponível e Aplicações

Observação: Leia agora no final desta seção o lançamento de débito em Disponível e aplicações e crédito no Caixa (23A).

 

CONTAS “T”

 

Relatórios Projetados para janeiro de 20X1

Observação: Os valores do balanço patrimonial aqui informados correspondem ao saldo final das contas “T” apresentadas acima.

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