Como elaborar um orçamento voltado à criação de valor para o acionista?

Neste artigo, orçaremos o Balanço Patrimonial, a Demonstração de Resultado e o Fluxo de Caixa, mostrando a maneira como deverá ser feita a integração entre todos os relatórios.

O orçamento empresarial deverá começar com o plano de lucros. Já o ponto final, consiste na determinação do faturamento/vendas/receitas de equilíbrio. É aquele volume de vendas que absorverá todos os gastos variáveis e fixos e proporcionará a meta de lucro desejada pelos acionistas.

Esta meta de lucro deverá cobrir o custo do capital de terceiros, cobrir o custo do capital próprio e deixar um excedente: é o EVA®.

Será observado o tratamento a ser dado aos gastos variáveis e fixos. Será discutido como deverá ser definida uma unidade de negócio e que tipo de simulação poderemos desenvolver diante da metodologia de trabalho proposta neste texto.

Este texto deverá ser lido com uma calculadora financeira à mão. Recomendamos enfaticamente que o leitor cheque todas as contas do caso prático, para que seu entendimento seja facilitado.

Faturamento de Equilíbrio (uma revisão)

Faturamento de equilíbrio (ou receita de equilíbrio) é dado pela fórmula:

 

Faturamento de Equilíbrio = meta de lucro operacional + gasto fixo + impostos + gastos variáveis.

 

O lucro operacional tem como missão pagar o custo do capital de terceiros, pagar o custo do capital próprio e deixar um excedente. Este excedente tem um nome: EVA® (Economic Value Added).

A fórmula de cálculo do faturamento de equilíbrio (FE), também poderá ter a seguinte apresentação:

Onde, LO = Lucro Operacional, GF = Gastos Fixos, I = Impostos, GV = Gastos Variáveis.

Partindo do pressuposto de que uma unidade de negócio costuma ter vários produtos, a fórmula do faturamento de equilíbrio (FE) apresentada acima serve para determinar o respectivo FE em valores (e não em quantidades).

Para que a aplicação da fórmula do FE não apresente um resultado equivocado, devemos tomar os seguintes cuidados na apresentação das premissas:

  • A meta de lucro operacional e a estimativa de gastos fixos deverão ser apresentadas em termos absolutos (valores). Jamais definir estas premissas como um percentual sobre o FE. Também não proceder a qualquer tipo de rateio.
  • Os impostos (IPI, ICMS, etc.), por natureza, representam um percentual sobre o FE, e assim deverão ser considerados.
  • Os gastos variáveis deverão ser tratados com base em um percentual sobre o FE.

Formato de Apresentação de Demonstração do Resultado

O formato do resultado é o recomendado para a apresentação do faturamento de equilíbrio de várias unidades de negócio:

Elaboração de um Orçamento Voltado à Criação de valor para o Acionista

Neste texto, mostraremos como se elabora um orçamento integrado de balanço, resultado e caixa, cujo exemplo detalhado vem a seguir:

Dados para projeção do Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado e Fluxo de Caixa para abril:

  1. Custo do capital de terceiros: 3% bruto a.m. (2,1% líquido de IR) – Juros incorridos e pagos no período
  2. Custo do capital próprio: 5% a.m. (3,5% líquido)
  3. Alíquota do Imposto de Renda: 30%
  4. Calcular o Custo Médio Ponderado de Capital com 6 casas decimais
  5. Prazo médio de recebimento das duplicatas: 20 dias
  6. Prazo médio de renovação dos estoques: 25 dias
  7. Prazo médio de pagamento a fornecedores: 15 dias
  8. Prazo médio de pagamento dos impostos: 0 dias
  9. Existem 2 unidades de negócio: A e B
  10. Gasto fixo não identificado a nenhuma unidade: $2.500
  11. Gasto fixo identificado à unidade A: $1.500
  12. Gasto fixo identificado à unidade B: $2.500
  13. Participação histórica da unidade A na formação do lucro operacional parcial antes dos gastos fixos não identificados: 40% (os outros 60% pertencem à unidade B)
  14. Os gastos variáveis da unidade A representam 50% das vendas brutas. 45% na unidade B
  15. Os impostos sobre vendas representam 15% na unidade A e 18% na unidade B
  16. Superávits projetados devem ser adicionados ao Disponível. Déficits projetados devem ser inicialmente pagos com o disponível; em falta deste, deve-se contratar empréstimos.
  17. Fazer o orçamento do faturamento de equilíbrio (FE) para cada unidade de negócio.

Solução

Cálculo do Ativo Operacional Líquido (AOL):

O AOL é a diferença entre o Ativo Total de $182.000 menos o Passivo Operacional de $10.500 (composto de $9.000/fornecedores + $1.500/IR a pagar).

O AOL também pode ser calculado pela soma do capital de terceiros ($75.000 mais o capital próprio ($96.500).

 

Cálculo do Custo Médio Ponderado de Capital – CMPC (bruto e líquido):

O CMPC bruto de 0,041253 mostra o quanto custa a estrutura de capital que suportará o AOL de $171.500. Portanto, o retorno sobre o AOL deverá ser de, no mínimo, 0,041253. Se aplicarmos o CMPC sobre o AOL, temos o lucro operacional de equilíbrio, que paga o custo do capital próprio e de terceiros, não deixando nada (EVA® = 0).

 

Cálculo do lucro operacional:

Queremos calcular o faturamento de equilíbrio, com EVA® = $0, portanto, aplicamos o CMPC sobre o AOL, de modo que o lucro pague exatamente os custos de capital próprio e de terceiros, conforme já explicado acima.

Depois, aplicamos ao lucro a alíquota de IR de 30%, para chegarmos ao lucro após o IR.

 

O lucro operacional tem como missão pagar o custo do capital de terceiros, pagar o custo de capital próprio e deixar um excedente, que é o EVA®.

 

Cálculo dos juros (custo de capital de terceiros):

Aplicamos ao saldo de empréstimos (capital de terceiros) a taxa de juros dos empréstimos; depois, calculamos o benefício fiscal pelo pagamento destes juros.

O lucro depois dos juros vem do lucro operacional depois do IR ($4.952) menos os juros nominais ($2.250), mais o benefício fiscal dos juros ($675), totalizando $3.377 ($4.952 – $2.250 + $675).

 

Cálculo do LO parcial:

O LO parcial parte do lucro operacional mais o valor dos gastos fixos não identificados. Portanto, estamos “subindo” na demonstração do resultado.

A partir daqui, não trabalharemos mais em termos de valores consolidados e sim, separaremos as unidades de negócio de modo a calcularmos os faturamentos de equilíbrio de cada uma delas.

 

O lucro de uma unidade de negócio é dado pelo lucro operacional parcial. Não há alocação de gastos fixos não identificados.

 

Cálculo do faturamento de equilíbrio (FE) na unidade de negócio A:

Primeiramente, vamos calcular a parcela do lucro que é historicamente gerado pela unidade A: 40%. Isto significa que do lucro de $9.574 da empresa, a unidade A responde por 40% dele. Temos, portanto:

Continuamos a subir e adicionamos a ele o valor dos gastos fixos identificados à unidade A para chegarmos à margem de contribuição desejada, a qual é representada em termos absolutos:

Depois, calculamos o faturamento de equilíbrio:

Portanto, os gastos variáveis são de $7.614 (0,50 x $15.228) e os impostos de $2.284 (0,15 x $15.228).

 

Cálculo do faturamento de equilíbrio (FE) na unidade de negócio B:

Primeiramente, a parcela do lucro que é historicamente gerado pela unidade B é 60%. Isto significa que do lucro de $9.574 da empresa, a unidade B responde por 60% dele. Temos, portanto:

Continuamos a subir e adicionamos a ele o valor dos gastos fixos identificados à unidade B para chegarmos à margem de contribuição desejada, a qual é representada em termos absolutos:

Depois, calculamos o faturamento de equilíbrio:

Portanto, os gastos variáveis são de $10.027 (0,45 x $22.281) e os impostos de $4.010 (0,18 x $22.281).

Abaixo, segue quadro da demonstração do resultado já preenchido. Lembramos ainda que o quadro consolidado até o LO parcial nada mais é do que a soma das unidades A e B.

 

Costumeiramente os orçamentos devem contemplar uma meta de EVA® acima de zero. Devemos sempre buscar a criação de valor para o acionista. O EVA® de zero mostra equilíbrio. É apenas um empate, mas o que interessa é somente a vitória.

 

PROJEÇÃO DE CONTAS DO BALANÇO PATRIMONIAL PARA 30/04

Cálculo do disponível:

Na projeção de contas do balanço patrimonial, a conta disponível será a última conta a ser calculada, pois ela depende de todas as outras. Portanto, vamos calculá-la ao final do exercício.

Seu valor corresponde ao valor do fluxo de caixa final do período, se este for positivo. Caso seja negativo, a conta disponível é zero ou o valor do caixa mínimo operacional (não assumido neste exemplo).

 

Cálculo de duplicatas a receber:

O cálculo de duplicatas a receber é feito com base no chamado prazo médio de recebimento de duplicatas, que nada mais do que o número de dias de vendas correspondentes às duplicatas (em nosso caso, 30). Primeiro calculamos o valor de vendas por dia, bastando para isto dividirmos as vendas brutas do período pelo número de dias deste período (em nosso caso, dividimos por um mês, 30 dias). Depois de calculado quanto equivalem as vendas de um dia, multiplicamos pelo número de dias de vendas correspondentes às duplicatas (em nosso caso, 20).

 

Cálculo de imobilizações líquidas:

É feito considerando-se o valor de imobilizações brutas menos as depreciações acumuladas.

A imobilização bruta é calculada com base no valor do período anterior mais os novos investimentos menos as baixas.

A depreciação acumulada é calculada partindo-se do saldo anterior mais a depreciação do período (calculada pela aplicação da alíquota correspondente sobre o valor bruto das imobilizações do período anterior), menos as baixas.

Neste exemplo, consideramos a alíquota de depreciação zero, para fins de simplificação.

 

Cálculo de estoques:

O cálculo é semelhante ao de duplicatas a receber, só que utilizamos aqui o valor dos gastos variáveis para o cálculo de quanto vale o estoque.

 

Cálculo de fornecedores:

O mesmo cálculo dos estoques.

 

Cálculo do imposto de renda a pagar:

É o valor líquido de IR calculado da demonstração do resultado, sendo composto do IR sobre o lucro operacional de $2.122 menos o benefício fiscal gerado pelo pagamento dos juros ($675).

 

Cálculo de impostos a pagar:

Utilizamos o mesmo raciocínio de estoques, só que ao invés do gasto variável, usamos o valor de impostos.

 

Cálculo de empréstimos:

Tal qual a conta de disponível, ela é feita em último lugar. Ele corresponde à soma do saldo anterior menos as baixas ao valor do fluxo de caixa final se este for negativo, mais o caixa mínimo operacional (se assumido).

 

Cálculo do patrimônio líquido:

Ele é composto do saldo anterior mais o lucro retido do período.

 

PROJEÇÃO DO FLUXO DE CAIXA PARA ABRIL

 

Entrada de caixa por vendas: $37.509 + $25.000 – $25.006 = $37.503

É o valor das vendas brutas do período, mais o recebimento das duplicatas do período anterior, menos o valor das vendas feitas à prazo no período (duplicatas).

(-) Saída de caixa por impostos: ($6.294) – $0 + $0 = ($6.294)

É o valor dos impostos do período, mais o pagamento dos impostos do período anterior, menos o valor dos impostos a pagar no próximo período

(-) Saída de caixa por gastos variáveis: ($17.640) – $14.700 + $12.000 – $9.000 + $8.820 = ($20.520)

É o valor dos gastos variáveis do período, menos o valor dos estoques do período mais os estoques baixados do período anterior, menos o valor de fornecedores a pagar no próximo período, mais o pagamento dos fornecedores do período anterior.

(=) Entrada de caixa por margem de contribuição: $10.689

É a soma da entrada por vendas brutas menos a saída de caixa por impostos e gastos variáveis.

(-) Saída de caixa de fixos identificados: ($4.000)

É o pagamento dos gastos fixos do período.

(=) Entrada de caixa por lucro operacional parcial: $6.689

É a soma da entrada por margem de contribuição menos a saída de caixa por fixos identificados.

(-) Saída de caixa a nível de fixos não identificados: ($2.500)

É o pagamento dos gastos fixos não identificados do período.

(=) Entrada de caixa por lucro operacional: $4.189

É a soma da entrada por lucro operacional parcial menos a saída de caixa por fixos não identificados.

(-) Saída de caixa por pagamento de juros: ($2.250)

É o pagamento dos juros do período.

(-) Saída de caixa por Imposto de Renda: ($1.447) – $1.500 + $1.447 = ($1.500)

É o valor do IR do período, menos o valor do IR a pagar do período mais o IR a pagar para o próximo período.

(=) FLUXO DE CAIXA FINAL = $438 = Superávit

É o valor da entrada de caixa por lucro operacional menos a saída de caixa pelo pagamento dos juros menos a saída de caixa pelo pagamento do IR. Este valor, por ser positivo, será acrescido ao saldo anterior do disponível. Os empréstimos mantêm o valor atual, pelo fato do fluxo de caixa ter sido positivo e por não ter havido qualquer outra movimentação.

RELATÓRIO DAS CONTAS “Ts”

As contas “T”, servem para mostrar o débito e crédito de cada valor lançado nas demonstrações financeiras. Exemplo: a conta “Vendas Brutas” está credora em demonstração do resultado e devedora em fluxo de caixa. Os números após cada valor correspondem ao débito/crédito, de modo a facilitar sua procura.

Nas contas “T” que começam logo após o quadro de demonstração do resultado e fluxo de caixa, são apresentadas as variações das contas, isto é, seus saldos iniciais (SI), suas movimentações e seus saldos finais (SF). As contas que tiverem apenas um valor são aquelas que não tiveram movimentação no período, e, portanto, seu saldo inicial é igual ao final.

 

Comentários

Estes comentários sintetizam tudo o que gostaríamos que o leitor guardasse deste texto:

  • Costumeiramente os orçamentos devem contemplar uma meta de EVA® acima de zero. Devemos sempre buscar a criação de valor para o acionista. O EVA® de zero mostra equilíbrio. É apenas um empate, mas o que interessa é somente a vitória;
  • O lucro operacional tem como missão pagar o custo do capital de terceiros, pagar o custo de capital próprio e deixar um excedente, que é o EVA®;
  • Os gastos fixos são separados em identificados e não identificados. Os gastos fixos identificados são aqueles que desaparecem caso a unidade de negócio venha a ser fechada. Os que não desaparecem, são tratados como gastos fixos não identificados;
  • O lucro de uma unidade de negócio é dado pelo lucro operacional parcial. Não há alocação de gastos fixos não identificados;
  • A margem de contribuição que se monitora é um valor absoluto, e não um percentual sobre as vendas;
  • A margem de contribuição servirá para pagar os gastos fixos mais o lucro;
  • A fórmula do FE trata a margem de contribuição em valores e os gastos variáveis como um percentual sobre o FE;
  • Uma unidade de negócio deverá contemplar produtos que tenham margem de contribuição idênticas ou parecidas. Esta condição é fundamental para que nossas contas tenham consistência.
  • Este formato orçamentário facilita simulações do tipo:
  1. Quanto as vendas devem aumentar se os preços caírem x%?
  2. Redistribuição de metas de lucro operacional para cada unidade de negócio, desde que no consolidado absorvam gastos fixos mais lucro;
  3. Impacto no FE de uma redução ou aumento nos custos, e
  4. Outras simulações.

 

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