Como definir uma estrutura de capital ideal? Qual a análise e os procedimentos fundamentais?

A missão deste artigo é oferecer ao leitor uma linha de raciocínio e de procedimentos para definir uma estrutura de capital ideal para sua empresa.

O capital de terceiros custa mais barato que o capital próprio. Portanto, vamos financiar todos os investimentos de uma empresa somente com recursos de terceiros!!!

Seria uma grande estratégia se o fluxo de caixa operacional mínimo desejado tivesse 100% de probabilidade de ocorrer, pagando com certeza todo o serviço da dívida. Porém, a certeza absoluta de uma geração de caixa operacional não existe.

A empresa que resolvesse financiar todos os investimentos com recursos de terceiros quebraria quando tivesse que pagar os juros e o principal em períodos de fluxo de caixa operacional reduzido.

Qual a estrutura de capital ideal? Qual a relação debt / equity que combina o menor custo médio ponderado de capital com a total condição de pagar o serviço da dívida – juros mais principal – mesmo em períodos comercialmente desfavoráveis.

Estrutura de Capital

Vamos assumir que estamos analisando o projeto de uma nova fábrica com investimentos e fontes de financiamento de acordo com a estrutura patrimonial abaixo:

  • Ativo Operacional Líquido (AOL) é a diferença entre o Ativo Operacional (capital circulante mais capital fixo) menos as obrigações de curto prazo junto a fornecedores, impostos e provisões de quaisquer
  • Capital de Terceiros (CT) representa os financiamentos de curto e longo prazos associados a programas de
  • Capital Próprio (CP) representa os “financiamentos” dos acionistas. É o dinheiro integralizado pelos acionistas na empresa mais os lucros retidos (Patrimônio Líquido).

Atenção: para ganharmos tempo e espaço, todas as informações apresentadas neste texto já estarão ajustadas ao imposto de renda.

  • Custo do Capital de Terceiros (CCT) = 7% ao ano líquido da economia tributária.
  • Custo do Capital Próprio (CCP) = 14% ao

Atenção: O capital próprio corre riscos, sendo o acionista remunerado através de dividendos e de ganho de capital na hipótese da existência de lucro. O capital de terceiros será remunerado e devolvido independentemente da existência de lucros ou prejuízos, estando até o serviço da dívida protegido por garantias. Portanto, a remuneração(custo) do capital próprio deverá ser sempre superior ao custo do capital de terceiros.

Interpretação coloquial do quadro acima:

Os administradores têm à sua disposição um AOL de $9.000 para gerenciar. Todavia, estes recursos não são disponibilizados de graça. O AOL de $9.000 é financiado por capitais de terceiros e capitais próprios. Ambos têm custos.

Portanto, o retorno obtido sobre o AOL deverá ser, no mínimo, igual ao custo médio ponderado dos financiamentos – capital próprio mais de terceiros.

Agora, podemos determinar o cálculo do custo médio ponderado de capital (CMPC).

Médio porque considera capital de terceiros e capital próprio. Ponderado porque considera a participação (peso) de cada fonte de recursos no financiamento do AOL.

O CMPC líquido é de:

O CMPC serve para balizar o retorno mínimo a ser obtido pela gestão sobre o AOL.

Vamos exemplificar:

Este formato possibilita a evidenciação do custo do capital de terceiros (juros) e do custo do capital próprio.

No exemplo, o EVA – Economic Value Added – de zero mostra que o retorno para o acionista é igual ao mínimo esperado. O retorno sobre o capital próprio empregado no negócio é de 14% ($700 / $5.000).

Simulando Estruturas de Capital Diferentes

Para elevar o retorno para o acionista, a empresa resolveu manter o cenário que aponta um lucro operacional de $980 e modificar a estrutura de capital aumentando a participação do capital de terceiros e reduzindo a participação do capital próprio.

A demonstração de resultado acima poderá ser resumida como segue:

Comentários:

  • O lucro operacional é constante nos 3 cenários. O que está diminuindo são os gastos com a estrutura de capital.
  • Como o capital de terceiros custa 7% e o capital próprio custa 14%, quanto mais capital de terceiros utilizarmos e menos capital próprio, maior o retorno para o acionista.
  • O retorno sobre o capital próprio é um indicador mais importante do que o lucro. É melhor investir $3.000 e ganhar $560, do que ganhar $700 mas ter que investir $5.000. Os $2.000 ($5.000 – $3.000) que sobram poderão ser aplicados em outros negócios com expectativa de retorno de no mínimo 14%.
  • Porém, o lucro operacional esperado de $980 poderá não acontecer. Dependendo da redução, a empresa poderá ser incapaz de pagar os juros e amortizar o principal ficando insolvente e quebrar.
  • Qual é a relação capital de terceiros ideal? Aquela em que temos o menor gasto com a estrutura de capital e não colocamos a sobrevivência da empresa em xeque caso ocorra uma redução no lucro operacional

Importante: Antes de prosseguir faremos duas considerações:

  1. Para simplificar, vamos assumir que os números referentes ao lucro operacional e ao fluxo de caixa operacional são iguais. Como dizemos, é apenas uma simplificação. Na prática, tal estudo deveria ser conduzido com base nas projeções de fluxo de caixa.
  2. Vamos assumir que o capital de terceiros será pago em 10 parcelas anuais iguais. Portanto, o serviço da dívida na hipótese 1 é o somatório dos juros de $280 mais o pagamento de $400 de principal ($4.000/10). Reiteramos que este procedimento é simplista. Nossa preocupação maior é desenvolver uma linha geral de raciocínio e de procedimentos correta.

O fluxo de caixa que suportará a decisão é o seguinte:

Comentários:

  • Serviço da dívida: é o somatório dos juros de 7% ao ano sobre o capital de terceiros, mais o valor anual do principal correspondente ao capital de terceiros dividido por 10
  • Cobertura dos juros mais o principal: é a relação entre o fluxo de caixa operacional e o serviço da dívida.
  • Queda tolerável no FCO – em $: é a diferença entre fluxo de caixa operacional e o serviço da dívida. Significa o quanto o lucro operacional poderá diminuir sem comprometer o pagamento do serviço da dívida nas condições pactuadas.
  • Queda tolerável no FCO – em %: é a relação entre a queda tolerável em reais sobre o fluxo de caixa operacional.
  • Vamos começar nossa análise pela estrutura de capital mais agressiva, que é a da hipótese 3. A estrutura de capital da hipótese 3 é perigosa para a empresa. Neste cenário, o fluxo de caixa operacional não paga o serviço da dívida. A empresa teria que contar com uma superação de desempenho (vendas maiores e gastos menores). Esta estrutura de capital deverá ser rejeitada, a menos que a empresa consiga alongar o pagamento do principal.
  • Vamos passar para a hipótese 2. O fluxo de caixa operacional paga o serviço da dívida com uma certa folga. Porém, agora é a hora de manter a estrutura de capital constante e elaborar um fluxo de caixa operacional mais conservador. Neste fluxo de caixa operacional conservador, as principais premissas são definidas em um ambiente econômico mais pessimista (vendas menores, custos maiores, etc. ).
  • Vamos supor que neste cenário mais conservador o fluxo de caixa operacional caia para $800. Nestas circunstâncias, a capacidade de pagar o serviço da dívida ficará comprometida. Os financiadores de capital, percebendo este risco, elevarão as taxas de juros ou até reprovarão a concessão do financiamento. Se o custo do capital de terceiros subir, o custo do capital próprio também irá subir e, obviamente, o custo total da estrutura de capital. Portanto, esta estrutura de capital também ficará reprovada, a menos que a empresa consiga esticar o prazo de pagamento do principal de sua dívida.
  • A estrutura de capital igual ou próxima à da hipótese 1 deve ser a escolhida. Mesmo que o fluxo de caixa operacional despenque para $800, ainda será suficiente para pagar o serviço da dívida de $680.
  • Grandes corporações têm acesso a financiamentos que possibilitam a rolagem do principal quando do seu vencimento, desde que demonstrem uma situação econômica e financeira confortável. Nesta circunstância, o fluxo de caixa operacional fica comprometido apenas com o pagamento dos juros, podendo a empresa assumir uma estrutura de capital mais agressiva.
  • Fica transparente com este exemplo que empresas com pouca volatilidade no seu fluxo de caixa operacional podem assumir um endividamento mais elevado, exemplo típico das empresas que produzem e distribuem energia.
  • A definição de um banco de premissas consistente – e bem defendido junto aos banqueiros – é fundamental para uma empresa otimizar sua estrutura de capital.

Como definir uma estrutura de capital ideal? Qual a análise e os procedimentos fundamentais?

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