Como avaliar ativos intangíveis e se diferenciar no mercado de trabalho?

A necessidade da avaliação dos ativos intangíveis para alocação do preço de compra (também conhecido como PPA – Purchase Price Allocation) se tornou cada vez mais presente, desde o advento da lei 11.638/07. A escassez de cursos e literatura especializada no assunto, tem valorizado cada vez mais o profissional que domina o conhecimento aplicado neste tipo de avaliação.

Entenda como surgiu esse mercado e quais são as principais metodologias adotadas na avaliação de ativos intangíveis.

Como era

Até pouco mais de 10 anos, quando uma empresa adquiria outra por um valor maior do que o valor contábil, exigia-se que a empresa adquirente justificasse o valor pago pela adquirida. Esta diferença entre o valor pago e o valor contábil é o que se chama de ágio.

Nestes casos, a pergunta que pairava era “QUANTO VALE?”. Para tanto, contratavam-se consultorias especializadas para avaliar a empresa adquirida e analisar se a empresa valia mais do que o valor pago e, assim, justificar o preço de aquisição.

A justificativa do ágio se dava pela expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Assim como era esperado um retorno sobre este investimento ao longo dos anos, a legislação previa a amortização deste ágio, bem como a sua dedutibilidade fiscal.

Como é

Com o advento da lei 11.638/07 as normas contábeis brasileiras passaram a se alinhar mais às normas internacionais (também conhecida como IFRS – International Financial Reporting Standards) e com isso a pergunta “QUANTO VALE?” já não era suficiente. A partir deste momento, em uma aquisição de empresas, além de saber o quanto ela vale, as novas normas passaram a perguntar “ONDE ESTÁ ESSE VALOR?”, ou seja, não basta mais somente avaliar a empresa adquirida, agora é necessário que se responda em quais ativos estão alocados o valor da empresa.

Na prática, se antes bastava dizer que a empresa valia $1.000, hoje é necessário que se destrinche este valor e se diga, por exemplo, que se uma empresa vale $ 1.000, $300 é referente ao valor da marca, $ 200 à carteira de clientes, $ 450 ao imobilizado e $ 50 ao valor do capital de giro.

O surgimento de um nicho de atuação para os avaliadores

Dentro deste contexto, nasceu um novo nicho de atuação para os avaliadores de empresa, a avaliação de ativos intangíveis para alocação do preço de compra (também conhecido como PPA – Purchase Price Allocation).

Em 2008, este tipo de trabalho começou ser demandado em peso nas principais consultorias do país e praticamente não havia pessoal capacitado para atender tamanha demanda. Diante desta situação, muitas vezes a capacitação se fazia de forma individual por consultores que recorriam por conta própria à escassa literatura estrangeira, uma vez que no Brasil não havia nenhuma a respeito, tampouco qualquer curso que oferecesse tal capacitação técnica. Mais de 10 anos se passaram e o cenário não mudou muito.

Atualmente, a transmissão de conhecimento técnico necessário para fazer este tipo de avaliação tem dependido quase que exclusivamente de treinamentos internos promovidos pelas próprias consultorias, quando há.

Se por um lado a escassez de cursos e literatura especializada no assunto não contribuem para o desenvolvimento dos profissionais de avaliação, esta mesma escassez torna o consultor dotado de tal conhecimento, um profissional extremamente valorizado no mercado.

Quais são as principais metodologias utilizadas neste tipo de avaliação

A avaliação de ativos intangíveis pauta-se em metodologias muito similares às usadas na avaliação de empresa, porém com algumas adaptações que se desdobram em metodologias mais específicas, como por exemplo:

Excess Earnings’: um desdobramento do Income Approach que permite avaliar ativos intangíveis em função do diferencial de resultado estimado para uma empresa com e sem determinado ativo. Esse método permite, por exemplo, a avaliação de um acordo de não competitividade;

‘Royalty Relief’: método que se baseia na hipótese de cobrança de royalties pelo uso da marca da empresa e o quanto estes royalties geram de valor ao longo do tempo. Podem ser utilizados para avaliar tanto marcas como patentes e demais ativos passíveis de licenciamento.

‘Income Approach com ativos contributórios: método que se assemelha às avaliações por fluxo de caixa descontado, porém consideram o impacto do custo de contribuição de determinados ativos no fluxo estimado. Este método é bastante utilizado na avaliação de Carteira de Clientes, onde se estima o potencial gerador de caixa de determinada carteira, deduzindo-se os custos de contribuição de demais ativos como a marca, capital de giro e o imobilizado – parte-se do pressuposto que uma venda não ocorre apenas em função da força da sua carteira de clientes,  mas da contribuição de diversos outros ativos, por isso todo valor gerado numa venda não pode ser atribuído unicamente à ela.

‘Cost Approach’: é uma técnica que utiliza a reprodução ou custo de reposição como base inicial para o valor pautando-se na premissa de que um investidor não pagaria mais por um ativo do que o valor para repor esse mesmo bem, bastante utilizada para se estimar o valor da força de trabalho de uma empresa (workforce).

Conclusão

Neste contexto, a necessidade da avaliação de ativos intangíveis tem aberto um mercado novo o qual, embora tenha mais de dez anos, ainda é carente de aperfeiçoamento técnico. A escassa literatura, bem como a falta de cursos no mercado tem feito do avaliador de ativos intangíveis um profissional diferenciado. Ainda que as técnicas adotadas neste tipo de avaliação sejam derivações dos modelos tradicionais de avaliação de empresas, o domínio de suas nuances é primordial para o bom desempenho do avaliador.

Sobre o autor

Francisco Burckas

Desde 2012 é sócio da Crívah Consultoria Empresarial e Treinamentos, com mais de R$ 15,9 bi em ativos assistidos e/ou avaliados, destacando-se o trabalho de assessoria para a implantação do maior programa de microcrédito do Brasil, bem como a proposta de reestruturação do crédito consignado do terceiro maior fundo de pensão do país.

Trabalhou mais de 5 anos em renomadas empresas de consultoria dedicado à avaliação de empresas. Foi responsável técnico pela área de avaliação econômico-financeira da American Appraisal (adquirida pela Duff & Phelps) coordenando trabalho de avaliação de empresas, especializado em avaliação de ativos intangíveis para adequação aos padrões contábeis US GAAP, IFRS e BR GAAP (lei 11.638/07). Participou em processos de fusões e aquisições de empresas, apresentando trabalhos no Brasil e no exterior, com mais de R$ 8bi em ativos avaliados, destacando-se a avaliação econômico-financeira de quatro importantes empresas do grupo Jerónimo Martins (2ª maior empresa listada no PSI 20 – Portugal).

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