Como apresentar suas Demonstrações Financeiras? Um enfoque voltado para a criação de valor para o acionista.

Apresentação do Balanço Patrimonial e da Demonstração de Resultado para Análise Econômica

Vamos assumir que você, caro leitor, tenha a responsabilidade de elaborar uma análise econômica de sua empresa referente ao mês de janeiro de 20X1.

Analisar economicamente uma empresa consiste em qualificar o lucro. Mais precisamente qualificar o lucro operacional.

Qualificar o lucro operacional significa concluir, de maneira objetiva, se o lucro operacional é bom, regular ou ruim.

Para obter-se êxito na análise econômica da empresa, o balanço patrimonial e a demonstração de resultado deverão ser apresentados da seguinte maneira:

  1. CCT – custo do capital de terceiros
  2. EVA – economic value added

 

Preparando o Balanço Patrimonial para Análise Econômica

PRIMEIRO PASSO

O balanço patrimonial de 31/12/20X0 é o da operação, ou seja, do lado esquerdo apenas encontraremos os ativos operacionais que somam $106.000. São os investimentos circulantes de $46.000 e fixos de $60.000 que foram necessários para a geração da receita operacional bruta de $30.000 em janeiro de 20X1.

Ativos não operacionais, tais como empréstimos concedidos a controladas, imobilizações ociosas e outros, são eliminados dos ativos e ajustados contra financiamentos ou patrimônio líquido.

Em suma: temos o balanço patrimonial apenas da operação.

Importante! Os empréstimos de curto prazo foram separados em:

  • Conjunturais ($3.000): contratados em razão da falta de caixa para pagar obrigações. Geralmente um dinheiro de curto prazo, a taxas de juros elevadas. Este tipo de dívida costuma ser paga logo que exista excedente de caixa.
  • Estruturais ($4.000): contratados para suportar decisões de investimento (BNDES, por exemplo). Geralmente um dinheiro de longo prazo, a taxa de juros moderadas. É um empréstimo originário de uma decisão de estrutura de capital.

Os empréstimos de longo prazo de $6.000 são todos estruturais.

A alíquota do IR combinada com a da CSLL é de 30%.

O juro nominal dos empréstimos conjunturais é de 5% ao mês, ou 3,5% líquido do IR. Basta dividir $150 por $3.000 que chegaremos a 5%.

O juro nominal dos empréstimos estruturais é de 2% ao mês, ou 1,4% líquido. Basta dividir $200 por $10.000 que chegaremos a 2%.

SEGUNDO PASSO

O balanço patrimonial em 31/12/20X0 deverá ser compactado da seguinte maneira:

  • O passivo operacional de $27.780 contempla todos os financiamentos espontâneos, provenientes da própria dinâmica empresarial, incluindo os empréstimos estruturais. Vamos dizer que o passivo operacional agrupe os financiamentos originários espontaneamente do negócio.
  • O capital de terceiros de $10.000 contempla os empréstimos estruturais de curto prazo de $4.000 mais o de longo prazo de $6.000.
  • O capital próprio de $68.220 engloba os recursos integralizados pelos acionistas mais os lucros reinvestidos.

O último estágio de compactação do balanço patrimonial é o seguinte:

  • O ativo operacional líquido de $78.220 é a diferença entre o ativo operacional de $106.000 menos o passivo operacional de $27.780. O ativo operacional líquido (AOL) é a parcela do ativo operacional cujos financiamentos foram “buscados” fora da operação (capital de terceiros mais capital próprio).
  • O custo do capital de terceiros é de 1,4% ao mês. Em dinheiro corresponde a $140 (0,014 x $10.000). No resultado aparece como juros estruturais.
  • O custo do capital próprio é de 3% ao mês. Em dinheiro corresponde a $2.047 (0,03 x $68.220).
  • Portanto a estrutura de capital total custa $2.187 ($140 + $2.047).
  • Consequentemente, o lucro operacional para janeiro de 20X1 deverá ser de, no mínimo, $2.187.

Preparando a Demonstração de Resultado para Análise

A demonstração de resultado apresentada acima segue um formato bastante distinto em relação ao formato usual que encontramos diariamente nos jornais e revistas, e até mesmo em relação ao formato utilizado pelas empresas em suas análises internas.

  • A receita financeira de $10 é considerada parte integrante do lucro operacional. O investimento em caixa/bancos/disponibilidades é um ativo operacional. Portanto, a receita financeira proveniente de seu bom gerenciamento também só poderá ser tratada como operacional. É uma espécie de redutor das despesas operacionais, ou redutor dos juros dos empréstimos conjunturais. A receita financeira somente será tratada como não operacional quando proveniente de notórios excedentes de caixa. Um notório excedente é representado por recursos aplicados no mercado financeiro, mas que poderiam ser distribuídos na forma de dividendos, sem comprometer o caixa da operação.
  • Os juros brutos de $150 dos empréstimos conjunturais também são tratados dentro do lucro operacional, já que os empréstimos conjunturais de $3.000 estão dentro do passivo operacional.
  • O lucro operacional está evidenciado antes do imposto de renda ($6.860) e depois do imposto de renda ($4.882). O que importa é o lucro operacional depois do imposto de renda e da CSLL. Detalhe: os resultados apresentados na mídia impressa nos induzem a pensar em lucro operacional antes dos impostos, pela maneira como estes estão apresentados.
  • Os juros líquidos de $140 dos empréstimos estruturais estão fora do lucro operacional. No formato de apresentação que estamos recomendando estes juros já estão apresentados deduzidos da economia fiscal. Os $140 representam a diferença entre os $200 menos a economia fiscal de $60.
  • O custo do capital próprio de $2.047 está apresentado após o lucro líquido de $4.662. Nas demonstrações de resultado costumeiramente apresentadas, somente observamos os juros do capital de terceiros. No formato por nós sugerido,
  • apresentamos as duas pernas: os juros do capital de terceiros e o custo do capital próprio (o que não deixa de ser uma espécie de juros do capital próprio cobrado pelos acionistas – não confundir com o cálculo dos juros sobre capital atualmente existente).
  • Como estamos analisando “a operação”, observamos que o balanço patrimonial apresentado não contempla ativos não operacionais. Consequentemente, a demonstração de resultado também não contempla receitas e despesas não operacionais.
  • A demonstração de resultado mostra um EVA de $2.615. O EVA – Economic Value Added ou valor econômico adicionado/criado/agregado tem como principal interpretação o significado de um retorno extra. Retorno extra significa lucro acima do retorno requerido do capital investido. Vamos nos recordar da máxima: somente ficamos mais ricos quando detemos ativos que valem mais do que o capital investido. Para que um ativo valha mais do que o capital investido ele deverá apresentar retornos acima das expectativas. Portanto, ter EVAs sistematicamente é

Mérito do Formato Sugerido neste Artigo para Apresentação dos Demonstrativos

Lembremo-nos de que analisar economicamente uma empresa é qualificar o lucro, e que este lucro é o operacional. Portanto, vamos fixar nossa atenção no lucro operacional de $4.802, já depois do IR e da CSLL (que é o que importa).

Se “olharmos para cima”, vamos encontrar na extremidade superior as vendas brutas de $30.000. O que separa as vendas brutas do lucro operacional são os chamados gastos com a operação.

Se “olharmos para baixo”, vamos encontrar na extremidade inferior o EVA. O que separa o lucro operacional de $4.802 do EVA de $2.615 são os chamados gastos com a estrutura de capital. É o custo do capital de terceiros de $140 mais o custo do capital próprio de $2.047 ($4.802 – $2.615 = $2.187 = $140 + $2.047).

Atenção! Não importa se o lucro operacional representou 10% ou 12% das vendas líquidas. O que importa é se o lucro operacional cobriu ou não os gastos com a estrutura de capital.

Lucro operacional bom é aquele que supera os gastos com a estrutura de capital.

Lucro operacional regular é aquele que se equipara aos gastos com a estrutura de capital.

Lucro operacional ruim é aquele que é menor que os gastos com a estrutura de capital.

Em nosso exemplo o lucro operacional de $4.802 é bom, pois ele cobre os gastos com a estrutura de capital de $2.047, e deixa um excedente de retorno de $2.615, que é o EVA.

Conclusão: uma conclusão objetiva acerca da qualidade do lucro operacional somente é possível se o balanço patrimonial e a demonstração do resultado forem apresentados conforme este artigo.

Reforçando a Análise Econômica

Em valor, a estrutura de capital custa $2.187 ($140 pelo capital de terceiros e $2.047 pelo capital próprio).

Em termos percentuais, ela custa 2,796% ($2.187 / $78.220). O valor de $78.220 é o somatório do capital de terceiros de $10.000 mais o capital próprio de $68.220 (e evidentemente é o mesmo valor do ativo operacional líquido)

Portanto, o lucro operacional de equilíbrio deveria ser de $2.187, valor suficiente para cobrir os gastos com a estrutura de capital.

O lucro operacional de $4.802 é superior ao de equilíbrio, e representa um retorno sobre o ativo operacional líquido de 6,139% ($4.802 / $78.220).

O retorno de 6,139% representa um excedente de 3,343% em relação ao mínimo exigido de 2,79% (6,139% – 2,79%).

Por sua vez, este excedente de retorno de 3,343% aplicado sobre o ativo operacional líquido de $78.220 “bate” com o EVA de $2.615 (0,03343 x $78.220 = $2.615).

Confirma-se que a situação econômica é boa. Sobre o investimento de $78.220 conseguiu-se um retorno de 6,14% para um custo de capital de 2,79%. “Aplicou-se a uma taxa superior àquela que se captou”.

Estas contas somente podem ser feitas com o balanço patrimonial e a demonstração do resultado apresentados conforme estão neste artigo.

Como apresentar suas Demonstrações Financeiras? Um enfoque voltado para a criação de valor para o acionista.

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