Payback: Calculando o tempo necessário para recuperar o investimento

Neste artigo, mostraremos em detalhes outra ferramenta que sempre gera dúvidas na sua utilização: o Payback. Ao terminar sua leitura, esperamos te convencer quanto a superioridade do VPL como ferramenta na decisão de investimentos.

Conheça agora como é o cálculo e a interpretação do Payback, com suas vantagens e desvantagens. Confira!

Payback: o que é e como se calcula

O exemplo apresentado a seguir elucidará nossa exposição:

Período (ano) Projeto A Projeto B
0 (momento do investimento) ($10.000) ($10.000)
1 $8.000 $2.000
2 $2.000 $8.000

Quanto tempo o investidor precisa esperar até que os fluxos de caixa acumulados dos projetos igualem ou superem seu investimento inicial?

Esta é a pergunta que o payback procura responder. Vamos nos deter, por enquanto, apenas no projeto A. Repare que no projeto A o investimento inicial é de $10.000. No primeiro ano o fluxo de caixa é de $8.000. No segundo ano o fluxo de caixa é de $2.000 e a empresa recupera totalmente o investimento inicial realizado ($8.000 + $2.000 = $10.000).

Portanto, o projeto A “se paga” em dois anos. É este o significado do payback. Usando uma linguagem de mercado diríamos que o projeto A possui payback de dois anos.

Também é comum o uso do inverso do payback. O inverso do payback é o retorno esperado, ou seja, 1/2 = 50% ao ano no caso do projeto A. Caso o investidor no projeto A tenha determinado previamente que aceita projetos com payback inferior ou igual a 3 anos (ou seja, o tempo necessário para recuperar o investimento inicial é inferior ou igual a 3 anos) o projeto A seria aceito.

Portanto, para se utilizar o critério do payback é necessário previamente se escolher um período ou tempo limite para recuperação do investimento inicial.

Na maioria das vezes os números não são perfeitos como no exemplo acima e é necessário utilizarmos frações. Imagine que os fluxos do projeto A fossem $5.000 no primeiro ano e $9.000 no segundo ano.

Período (ano) Projeto A
0 (momento do investimento) ($10.000)
1 $4.000
2 $9.000

Neste caso o investimento seria recuperado em algum momento do segundo ano. Como foram recuperados $4.000 no primeiro ano, restaram $6.000 para serem recuperados no período seguinte.

Podemos calcular o período do ano onde o investimento será recuperado supondo que o fluxo de $9.000 ocorra de maneira uniforme durante o ano. Teríamos então $6.000 / $9.000 = 6 / 9 = 2 / 3.

Ou seja, o investimento seria recuperado em um ano mais 2/3 de ano. Se preferir, em um ano e oito meses.

Limitações do Payback

Quando comparamos o payback com o VPL nos deparamos com 3 limitações muito graves.

Primeira limitação: Repare que quando calculamos o período de payback para o projeto A não levamos em consideração qualquer taxa de desconto. Isto significa que o valor do dinheiro no tempo foi totalmente ignorado.

Vamos repetir a nossa tabela inicial.

Período (ano) Projeto A Projeto B
0 (momento do investimento) ($10.000) ($10.000)
1 $8.000 $2.000
2 $2.000 $8.000

Observe que, como o período assumido é o ano, tanto o projeto A quanto o projeto B possuem um payback de 2 anos.

Portanto, a primeira limitação no cálculo clássico do payback está em não considerar o valor do dinheiro no tempo. Receber $8.000 no momento 1 é melhor do que receber $8.000 no momento 2.

Qualquer que seja a taxa de juros utilizada para trazer os fluxos de entradas dos momentos 1 e 2 para o momento zero, fará com que o projeto A seja uma melhor opção de investimento.

Segunda limitação: O payback também não considera diferenças no risco do projeto. Quando utilizamos uma taxa de desconto para calcular o VPL de um projeto estamos levando em consideração o valor do dinheiro no tempo e também estamos levando em consideração o risco associado a este projeto.

O cálculo do payback para um projeto muito arriscado e para um projeto seguro seria feito exatamente da mesma maneira, como mostrado anteriormente.

Como corrigir as 2 primeiras limitações?

Desconte os fluxos de caixa projetados pelo custo do capital empatado para realizar o investimento.

Este custo de capital irá contemplar uma média do custo do capital de terceiros e do custo do capital próprio. Para definir o custo do capital próprio, leva-se em consideração o risco do investimento. Portanto, a taxa de desconto contempla o risco do investimento.

Terceira limitação (e a mais séria): Permanece uma terceira limitação no cálculo do indicador payback. Esta é mais importante e não podemos realizar nenhum tipo de adaptação. Vejamos no exemplo a seguir:

 

Período (ano) Projeto X Projeto Y
0 (momento do investimento) ($10.000) ($10.000)
1 $4.000 $5.000
2 $4.000 $6.250
3 $4.000 $0
4 $4.000 $0

Vamos supor que o investidor considere apropriado um período de payback menor ou igual a dois anos. Repare que os dois projetos demandam investimento $10.000.

Fazendo os cálculos como mostramos anteriormente teríamos:

Payback do projeto X = 2 + $2.000/$4.000 = 2,5 anos.
Payback do projeto Y = 1 + $5.000/$6.250 = 1,8 anos.

Pelo critério do payback o projeto X seria recusado e o projeto Y seria aceito.

O que queremos saber é se realmente esta é a melhor decisão. Para responder a esta questão vamos imaginar que o custo do capital investido nestes projetos seja de 10% e vamos calcular o VPL.

Agora chegamos a uma situação de impasse. Na verdade o VPL do projeto Y, que foi escolhido pelo critério do payback, é negativo. Isto significa que este projeto reduz o valor do capital dos acionistas.

Por sua vez, o VPL do projeto X que foi de $2.679,46, e que foi recusado pelo critério do payback, é um projeto que aumenta a riqueza dos acionistas.

O payback “empurra” a preferência dos investidores para os projetos de retorno mais rápido, enquanto que a preferência deveria recair sobre os projetos de mais valor agregado para o acionista.

Com este exemplo acreditamos que conseguimos convencer definitivamente o leitor das deficiências do payback.

O exemplo acima mostra que quando não levamos em consideração o valor do dinheiro no tempo corremos o risco de aceitar projetos que valem menos do que custam como é o caso do projeto Y. Este projeto custa $10.000 e na verdade vale -$289,25.

Por outro lado, quando ignoramos os fluxos de caixa depois do período limite determinado, estamos correndo o risco de ignorar projetos rentáveis para o acionista a longo prazo como no caso do projeto X.

Por esta razão afirmamos que o payback possui um viés de curto prazo. Para finalizar, temos que destacar que não existe fundamentação econômica na escolha de um período limite correto. Isto significa que a escolha do período limite é arbitrária.

Resumindo o que dissemos até aqui sobre o payback:

1. O payback não leva em consideração o valor do dinheiro no tempo. Ou seja, o payback apenas soma os fluxos de caixa sem aplicar qualquer taxa de desconto (limitação corrigível).

2. O payback também não leva em consideração as diferenças de risco nos projetos. Calculamos o payback de um projeto muito arriscado e de um projeto pouco arriscado exatamente da mesma maneira (limitação corrigível).

3. O payback ignora os fluxos de caixa posteriores ao período limite de recuperação do investimento (limitação incorrigível).

4. Ao não levar em consideração o valor do dinheiro no tempo o payback pode nos induzir a aceitar projetos que na verdade valem menos do que o investimento.

5. Ao não levar em consideração os fluxos de caixa após o período limite de recuperação do investimento, o payback pode nos induzir a rejeitar projetos que aumentam o valor para o acionista no longo prazo.

6. A escolha de um período limite para retorno é arbitrária. Na verdade, a informação relevante é o impacto que o investimento terá sobre o valor da empresa para o acionista, e não o tempo necessário para recuperar o investimento inicial.

Vantagens do Payback

Apesar dos problemas mostrados neste artigo, algumas empresa utilizam com frequência o payback. Um dos motivos é a facilidade de se entender o conceito de payback.

Outro motivo, mais importante e pragmático, é que no dia a dia dos negócios uma quantidade muito grande de novos investimentos viáveis são analisados.

Certamente, para muitos projetos, o custo da análise seria muito superior a um eventual erro ao se adotar um projeto. Portanto, na prática, muitas empresas adotam o payback para pequenas decisões de investimento.

Por exemplo, uma grande empresa poderá decidir que, para projetos com investimentos inferiores a $5.000, o payback deve ser de 2 anos. Já mostramos os problemas com este critério, entretanto, este critério tem a vantagem de exercer algum tipo de controle e de limitar eventuais perdas.

Também podemos dizer que o payback, ao privilegiar os fluxos de curto prazo, acaba privilegiando a liquidez. Ou seja, favorece a liberação de recursos para outras aplicações mais rapidamente. Esta característica pode ser importante para empresas menores.

Para finalizar, alguns analistas consideram que o payback, ao não levar em consideração os fluxos após o período limite, de certa forma considera que os fluxos que ocorrem mais tarde são incertos. Portanto, o payback levaria em conta o risco de fluxos mais distantes. Ainda que de forma brutal, ou seja, simplesmente não são levados em consideração.

Usualmente o método payback é utilizado para avaliar projetos envolvendo pequenas somas de recursos.

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